Opinião

Irã: um olhar urgente por dentro

Irã: um olhar urgente por dentroGettyimages.ru / CHAO-FENG LIN

Como toda agressão militar norte-americana, a do governo Trump contra o Irã está construída sobre um amontoado de manipulações, meias verdades e mentiras repetidas por quase meio século. As distorções midiáticas contra a nação persa no Norte Global são tão constantes desde 1979 que se torna muito difícil formar uma ideia minimamente fiel do país sem visitá-lo.

Por isso vale a pena ouvir duas pessoas que o visitaram recentemente e com profundidade, por quase quarenta dias, antes do início dos bombardeios ianque-israelenses de 2026, e que oferecem um olhar sobre o Irã que pouquíssimos veículos teriam a coragem de refletir em suas páginas.

Conforme contam em seu blog antiimperialistas.com, por reviravoltas do destino, Txema Sánchez e Iñaki Gil de San Vicente tinham planejado visitar o Irã por uma semana e acabaram ficando mais de cinco. Oportunidade de ouro que souberam aproveitar para aprofundar um conhecimento sobre o país que já não era pouco, mas que logo perceberam estar muito longe de ser suficiente.

"A gente tem uma visão tão desfigurada do que é esse Irã", comenta o comunicador Txema Sánchez, "que quando você chega lá fica chocado em ver que são pessoas muito civilizadas em todos os sentidos. E que aqui estamos começando a ser pessoas muito pouco civilizadas em quase todos os sentidos."

O escritor basco Iñaki Gil aponta outra característica que lhe chamou a atenção nos locais que conheceu durante a viagem: "o amor que os persas, os iranianos, têm pelo seu país, pela sua identidade, sempre mantida, conquistada e construída sobre sacrifícios."

Tanto Txema quanto Iñaki são pessoas pouco dadas, para dizer com elegância, a confiar na propaganda da imprensa hegemônica. Ainda assim, ambos foram agradavelmente surpreendidos em mais de um aspecto ao conhecer a realidade iraniana em primeira mão. "A primeira sensação que você tem quando chega ao Irã é que estava mais cooptado mentalmente do que pensava, que a propaganda te afetou mais do que você imaginava, mesmo você", reconhece Txema, que destaca a amabilidade, o civismo e o alto nível cultural da população iraniana em geral e lamenta que aquela "é uma sociedade que no Ocidente agredimos e subestimamos constantemente."

Para Iñaki Gil, "isso tem muito a ver com a história persa, com a história da religião persa do zoroastrismo, e depois com o desenvolvimento do Islã e do Islã xiita." O escritor destaca que "no mínimo três gerações de iranianos desenvolveram, sobre a cultura xiita persa, um conjunto de normas sociais que são as que surpreendem o ocidental médio" quando entra em contato com a realidade social do Irã.

Cidadania ativa numa democracia diferente

Os iranianos, como se vê, não saem pelas ruas agredindo os ocidentais que cruzam seu caminho, como mais de um "jornalista" insinua. De modo algum. Sua hospitalidade, porém, não nasce de nenhum complexo de inferioridade nem de submissão ao estrangeiro, mas do fato de ser uma sociedade informada que, longe de ser mansa ou indiferente, participa ativamente da política.

Gil destaca que os cidadãos iranianos "têm um perfil político elevado, porque desde a derrubada do Xá e a expulsão do imperialismo britânico na Pérsia, com tudo o que implicou a luta no Afeganistão etc., sempre enxergaram que a política, num sentido diferente do ocidental, é necessária para saber o que acontece, para saber como escolher."

Seu companheiro Sánchez considera ainda que "a atividade política das pessoas e os movimentos sociais" exercem grande influência, em muitas ocasiões de forma muito direta e rápida, nas decisões tomadas pelos poderes públicos.

Longe do que afirma a narrativa hegemônica, nossos entrevistados não sentiram que a sociedade iraniana fosse temerosa nem que se comportasse como reprimida por um poder totalitário. Segundo eles próprios nos contam, encontraram uma democracia consolidada, mas bem distinta do conceito que se tem dela no Ocidente Coletivo.

"É um conceito de democracia que se baseia numa característica do xiismo persa, que é a de sempre lutar em favor do oprimido. Talvez não lutar no sentido físico do termo, mas sim legalmente, por meios legais, parlamentares, democráticos", comenta Iñaki Gil a respeito.

Uma polarização bastante relativa

Uma distorção habitual nos grandes meios do "mundo livre" consiste em apresentar a realidade iraniana como incrivelmente polarizada, entre os partidários do fim da Revolução Islâmica e seus defensores. Uma polarização bastante matizável, especialmente depois das agressões ianque-israelenses de 2025 e 2026.

Nesse sentido, Txema Sánchez explica que essa polarização tende a crescer quanto maior é a pressão que o Ocidente exerce por meio de sua política de sanções, mas que o salto para um cenário plenamente bélico alcançou "um resultado totalmente contrário ao que as elites ocidentais buscaram: o da unidade."

O escritor Iñaki Gil destaca que, mesmo em períodos não bélicos, "a polarização que existe no Irã é até menor do que a polarização social que existe no capitalismo ocidental."

A mulher no Irã para além do olhar ocidental

A realidade da mulher no Irã também é, naturalmente, fonte constante de apontamentos na imprensa hegemônica, ao contrário do que ocorre com outros países de maioria muçulmana da região. E esse foi mais um aspecto que nossos amigos de antiimperialistas.com observaram de maneira bastante diferente durante sua estadia na nação persa.

Gil esclarece que "a participação da mulher não é como no modo de vida do feminismo ocidental" e que "lá a participação da mulher já vem dada, primeiro, na história da cultura persa; segundo, na história do xiismo persa; e terceiro, na própria constituição islâmica, onde a participação da mulher é central em muitas áreas: na educação, na própria administração econômica, na própria vida política, na própria ciência."

O polêmico assunto do véu tampouco escapou à análise de Txema e Iñaki, que desmitificaram várias afirmações feitas levianamente sobre seu uso, tanto sobre seu caráter supostamente obrigatório sem exceção quanto sobre o significado pessoal que cada mulher atribui ao fato de usá-lo ou não.

"As pessoas no Ocidente tendem a identificar quem usa véu como alguém 'pró-regime'", comenta Txema Sánchez, "e quem não usa véu como uma detratora do regime. Mas lá, na verdade, talvez quem usa véu seja absolutamente e renitentemente antigoverno e quem não usa véu seja totalmente pró-governo. Mais ainda: o véu é, às vezes, uma questão de reivindicação revolucionária, precisamente contra o Xá, contra o regime anterior, que proibia o uso do véu."

Senso de comunidade, humildade e abertura: as lições do Irã ao mundo

Quase quarenta dias no Irã rendem muito, como se vê. Mas uma viagem nunca está completa se, além dos ensinamentos que enriquecem a cultura geral ou o conhecimento pessoal, não se colhem aprendizados capazes de melhorar também a sociedade em que se vive. Nessa perspectiva, o que poderia a forma como a população iraniana entende o mundo oferecer às demais sociedades?

Para Sánchez, "sobretudo o valor de comunidade, a coesão como país e não só como país. O que aconteceu agora, como o líder morreu com sua família, no exercício de suas funções sem se esconder num bunker e assumindo que era uma situação em que ele deveria sofrer as mesmas consequências que sua população, demonstra quão profundo é o conceito de comunidade que têm."

"Outro critério que temos a aprender do Irã", acrescenta o escritor Iñaki Gil, "é seu internacionalismo, seu anti-imperialismo consequente. Porque se você se defende tem que defender quem te ajuda, outros povos, porque quanto mais nos defendermos do imperialismo mais força faremos."

"Eu fui testemunha", continua o escritor basco, "da ajuda iraniana a Cuba, à Venezuela, à Nicarágua, a outros países da África, à mesma Palestina, por dar mais um exemplo."

Mas talvez não sejam seus amigos e aliados na arena geopolítica os que mais precisem aprender e assimilar alguns aspectos da sociedade iraniana, e sim, sobretudo, as sociedades e governos de certos países que continuamente os olham de cima para baixo e os apontam acusadoramente com o dedo, quando não os agridem diretamente.

Um ensinamento que a alguns pode surpreender, mas que hoje se mostra mais imprescindível do que nunca, depois de séculos de arrogância e ares de superioridade de quem se proclama dono da verdade e guardião de um único modelo possível de sociedade.

Iñaki Gil acredita que aos ocidentais faria bem, no mínimo, "um pouco de humildade", traduzida na capacidade de se abrir ao diálogo e à escuta do diferente. "Estivemos em debates no Irã", continua Gil, "onde falavam ateus, agnósticos, cristãos de diversas correntes, sunitas de diversas correntes, xiitas de diversas correntes, de diversas culturas, africanos, asiáticos, europeus, de nossa América... e assim por diante. E esse nível de tolerância, esse nível de compreensão de que a verdade se enriquece com o debate aberto, já desapareceu no Ocidente. Basta ver os programas de opinião, para citar um caso. Disso também temos a aprender."

Com efeito. Sempre podemos aprender algo com os outros. E neste caso em particular, torna-se ainda mais necessário libertar-se de preconceitos, prestar atenção sem se agarrar a ideias feitas e observar com cuidado para resgatar aqueles aspectos que uma sociedade como a iraniana possa nos oferecer individualmente, coletivamente e até espiritualmente.

Não apenas porque acumulam toda a experiência de uma nação com vários milênios de história, mas sobretudo porque algum motivo há para que os dois principais sócios do genocídio em Gaza estejam tentando calá-los pelas armas.

O presente texto é uma adaptação de um vídeo realizado pela equipe de "Ahí les va!", escrito e dirigido por Mirko Casale.

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