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Descoberta de massacre pré-histórico na Inglaterra revela 'desumanização' das vítimas

Arqueólogos concluem que o assassinato em massa teve como motivação fatores sociais e promoção do terror.
Descoberta de massacre pré-histórico na Inglaterra revela 'desumanização' das vítimasSchulting et al. Antiquity, 2024

A análise de centenas de fragmentos de ossos de pelo menos 37 homens, mulheres e crianças que viveram no atual condado de Somerset, na Inglaterra, no início da Idade do Bronze, revelou que foram mortos, esquartejados e possivelmente vítimas de canibalismo antes de serem descartados em um poço natural. A informação foi divulgada em comunicado de pesquisadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Os arqueólogos apontam que este pode ser o maior registro de violência interpessoal na pré-história britânica.

Os ossos das 37 pessoas massacradas foram encontrados na década de 1970 em Charterhouse Warren, um poço natural com 15 metros de profundidade, localizado no condado de Somerset. A descoberta sugere que os restos mortais representavam uma comunidade.

Um estudo recente revelou inúmeras marcas de cortes e fraturas "perimortem" (realizadas pouco antes ou depois da morte) nos ossos, indicando que as vítimas foram intencionalmente assassinadas em massa e, possivelmente, parcialmente consumidas.

Os pesquisadores sugerem que os assassinatos foram motivados por fatores sociais. Embora as circunstâncias exatas nunca sejam conhecidas, a equipe liderada por Rick Schulting acredita que o massacre pode ter sido um exemplo de "violência como representação", usado para aterrorizar e enviar uma mensagem à comunidade. Os restos mortais, parcialmente consumidos, foram jogados no poço junto com ossos de outros animais, em um tratamento que visava "desumanizar" as vítimas.

De acordo com os especialistas, há mais evidências de ferimentos em esqueletos do Neolítico britânico do que no início da Idade do Bronze, o que torna a descoberta em Charterhouse Warren "algo muito incomum", reconhece o professor Rick Schulting, principal autor do estudo. "Isso mostra um quadro consideravelmente mais sombrio desse período do que muitos esperavam", comentou.

"Nosso entendimento desse período é principalmente sobre comércio e troca: como as pessoas faziam cerâmica, como cultivavam, como enterravam seus mortos", disse Schulting ao The Guardian. "Não houve nenhuma discussão real sobre guerra ou violência em larga escala nesse período, simplesmente por falta de evidências", acrescentou.

"Provavelmente foi um evento único que ocorreu em algum momento entre 2210 e 2010 a.C.", afirmam os especialistas. As vítimas parecem ter sido majoritariamente locais, e "o evento pode ter sido parte de um ciclo em espiral de vingança que surgiu de pressões sociais e políticas dentro ou entre as comunidades do início da Idade do Bronze", concluem os cientistas no artigo publicado na revista Antiquity.