Crise em um dos maiores bancos do Paraguai ameaça presidente; entenda

Milhares de pessoas saíram às ruas para protestar contra o governo de Santiago Peña.

A inesperada insolvência financeira e a subsequente intervenção estatal do Ueno Bank, um dos maiores bancos privados do Paraguai, se transformaram em uma grave crise para o presidente Santiago Peña, que enfrenta protestos, incerteza social e econômica e pedidos de impeachment contra ele.

O jornal ABC noticiou que parlamentares da Câmara dos Deputados já começaram a coletar assinaturas para iniciar um processo de destituição de Peña e de seu vice-presidente, Pedro Alliana. O presidente da Câmara, Raúl Latorre, convocou duas sessões extraordinárias para o dia 5 de novembro, com o objetivo de formular as acusações contra ambos. 

Os crimes incluiriam conflito de interesses, cooptação do Estado, manipulação regulatória, desvio de fundos de aposentadoria, excedimento de limites de crédito, encobrimento institucional, benefício patrimonial indevido e abalo da confiança no sistema financeiro nacional.

"O presidente Santiago Peña Palacios subordinou flagrantemente a administração do Estado aos seus interesses privados (...), essa conduta não apenas constitui um mau desempenho institucional, mas também configura indícios sólidos do crime de enriquecimento ilícito, tornando imperativa sua destituição para salvaguardar a ordem republicana", afirma o documento apresentado pelos deputados como parte de uma denúncia que também está sendo feita por cidadãos.

Peña, por sua vez, divulgou uma mensagem com o objetivo de tranquilizar a população. "O sistema financeiro é sólido e conta, além disso, com instituições e mecanismos de proteção. Tenham certeza de que os responsáveis por irregularidades deverão responder e já estão o fazendo perante a justiça, sem exceções (…); mantenhamos a serenidade para enfrentar essa situação da melhor maneira possível", declarou.

A pressão sob o mandatário vai além da oposição. O vice-presidente da Associação Nacional Republicana (ANR), partido do governo, Rodolfo Friedmann, pediu que o presidente "e seus cúmplices" sejam expulsos do partido "diante das graves denúncias de uma suposta fraude financeira envolvendo recursos públicos e o uso de instituições do Estado".

Presidente em xeque

Uma investigação jornalística, publicada no último dia 17 de outubro, revelou que a Ueno Holding Saeca, uma empresa ligada ao Ueno Bank, pagou, pelo menos até março de 2026, a quantia astronômica de 30 bilhões de guaranis (cerca de US$ 4,95 bilhões) a uma empresa na qual Santiago Peña figurava como acionista.

Além disso, em setembro de 2023, quando seu governo estava apenas começando, Peña nomeou Carlos Carvallo, um ex-diretor da Financiera Ueno, para o cargo de presidente do Banco Central do Paraguai (BCP). A partir daquele momento, Carvalho deveria supervisionar se seu antigo empregador cumpria as leis financeiras — o que não ocorreu.

A partir da chegada de Peña à presidência e de Carvallo ao BCP, o Ueno Bank passou a receber fundos multimilionários do Instituto de Previdência Social, órgão estatal, para pagar as aposentadorias, o que resultou em lucros exorbitantes para os banqueiros que foram detidos nesta semana.

Carvallo foi forçado a renunciar devido ao escândalo, porém a investigação sobre sua suposta responsabilidade nas irregularidades financeiras do Ueno Bank está ainda em fase inicial. Peña também sofre pressão, sendoduramente questionado no início da sessão extraordinária que a Câmara dos Deputados convocou para debater o projeto de lei que visa viabilizar pagamentos rápidos aos clientes do banco, em especial aos aposentados.

O que aconteceu?

A crise começou na madrugada de 3 de novembro, quando o BCP anunciou a intervenção no Ueno Bank devido à "insuficiência de seu índice de solvência", ou seja, o banco não possuía fundos suficientes para operar, embora não tenha declarado formalmente falência.

Imediatamente, o aplicativo do banco, assim como seus sites, todos os seus canais de comunicação e os cartões de débito e crédito deixaram de funcionar, o que causou angústia a milhões de clientes.

Políticos, meios de comunicação e cidadãos em geral começaram a falar em "golpe", "tragédia", "fraude" e responsabilizaram diretamente Peña devido às ligações que ele mantinha com o banco. "Santiago Peña tem que estar preso", disparou o deputado da oposição Raúl Benítez.

Nas horas frenéticas que se seguiram ao anúncio da intervenção, as agências do Ueno foram invadidas, enquanto o BCP garantia que as economias dos clientes estavam protegidas pela "solidez" do sistema financeiro e que seriam devolvidas em até 15 dias. Apesar da declaração, milhares de pessoas saíram às ruas para protestar e exigir a devolução imediata de seus recursos.

Em 4 de novembro, manifestantes voltaram a tomar as ruas ao grito de "queremos nosso dinheiro", exigindo que os valores fossem devolvidos às mais de 2,9 milhões de pessoas afetadas.

Segundo a mídia local, policiais também utilizaram balas de borracha contra os presentes nos protestos. Até o momento, não se conhecem detalhes sobre detidos e feridos durante os confrontos.

Detenções

Um dos setores especialmente afetados é o dos idosos que recebiam suas aposentadorias no Ueno e que, de repente, ficaram sem nada. Em resposta, o Instituto de Previdência Social (IPS) prometeu que abriria novas contas para garantir os pagamentos.

O Ministério Público do Paraguai, por sua vez, prendeu oito executivos do Ueno Bank que são acusados de fraude, suposto abuso de confiança e conduta imprópria em situações de crise.

Peña, por sua vez, demorou várias horas para se pronunciar publicamente. E o fez por meio de uma mensagem nas redes sociais, na qual informou a renúncia de Carvallo do cargo de presidente do Banco Central do Paraguai. Ele também prometeu que os poupadores recuperarão seus recursos e garantiu que as aposentadorias não estavam em risco.