Indonésia mobiliza quase 21 mil militares após prisão de generais por suspeita de espionagem

Governo afirma que interceptação ilegal de comunicações do presidente pode configurar traição; três generais estão detidos.

A Indonésia mobilizou quase 21 mil militares para Jacarta, capital do país, em meio a uma investigação sobre um esquema de espionagem ilegal contra o presidente Prabowo Subianto. O caso levou à prisão de três generais de alto escalão da polícia, suspeitos de ordenar a interceptação de comunicações presidenciais. A informação foi publicada pela Associated Press.

O escândalo ganhou dimensão política após o governo indonésio afirmar que a vigilância contra o chefe de Estado pode representar uma ameaça à segurança nacional. O ministro da Secretaria de Estado, Prasetyo Hadi, declarou que a conduta pode ser considerada um passo em direção à traição.

"O que eles fizeram poderia ser considerado um passo em direção a um ato de traição, porque coloca em risco os interesses do Estado, incluindo a liderança do país", afirmou Hadi durante uma coletiva de imprensa no palácio presidencial.

A mobilização envolve 20.980 militares, segundo o vice-almirante Yayan Sofiyan, assistente de operações da Marinha. Outros 13.140 integrantes das Forças Armadas permanecem de prontidão para eventual deslocamento.

A primeira etapa começou na segunda-feira (2), com 2.100 militares de unidades já estacionadas em Jacarta. Novos contingentes, incluindo fuzileiros navais e tropas de bases militares de Java e da província de Lampung, começaram a chegar nesta quarta-feira.

As autoridades não confirmaram uma ligação entre o envio das tropas e a investigação. O porta-voz das Forças Armadas, major-general Muhammad Nas, afirmou que a movimentação faz parte dos procedimentos habituais de manutenção da segurança nacional.

Espionagem presidencial

Entre os investigados está Listyo Sigit Prabowo, ex-chefe da Polícia Nacional, que havia sido nomeado chefe de gabinete presidencial no mês passado. O presidente determinou sua demissão nesta quarta-feira.

Listyo e os generais Ahrie Sonta Nasution e Eko Hadi Santoso foram detidos no domingo (1º), segundo anúncio da polícia feito na terça-feira (3). Os três são investigados por interceptação ilegal de comunicações, acesso não autorizado a sistemas eletrônicos e exclusão de dados.

De acordo com a polícia, as interceptações teriam ocorrido entre 2025 e 2026, período em que Listyo comandava a Polícia Nacional. Os suspeitos são acusados de ordenar operações de vigilância sem seguir os procedimentos legais.

A investigação também aponta que os generais teriam determinado, no fim de outubro, a exclusão de arquivos com comunicações interceptadas para ocultar provas. Além do presidente, integrantes do governo, políticos, jornalistas, empresários e representantes da sociedade civil também teriam sido monitorados.

Segurança nacional

O ministro Prasetyo Hadi afirmou que o governo aguarda os resultados da investigação para determinar os motivos da operação. Segundo ele, informações sensíveis obtidas por meio das comunicações presidenciais poderiam ser utilizadas contra os interesses do país.

O analista policial Bambang Rukminto, do Instituto de Estudos de Segurança e Estratégia, questionou quem teria interesse em obter informações do presidente. Para ele, a possibilidade de intimidação, que poderia explicar a vigilância contra outros alvos, não parece plausível nesse caso.

"Mas, se o alvo é o presidente, qual seria o motivo? Intimidar o presidente claramente não é uma explicação plausível", afirmou Rukminto.

O criminologista Adrianus Meliala, da Universidade da Indonésia, levantou a suspeita de que a vigilância poderia atender a interesses externos à polícia ou ao Estado. Segundo ele, caso as acusações sejam comprovadas, o episódio poderá ser interpretado no contexto de disputas políticas.

Os três generais podem enfrentar penas de até dez anos de prisão por crimes relacionados à interceptação e ao monitoramento ilegal de comunicações eletrônicas. Os investigados não se pronunciaram publicamente sobre as acusações.