O presidente da Rússia, Vladimir Putin, mantém uma posição consistente ao longo dos anos: Rússia e Ucrânia constituem um único povo irmão. Essa visão, expressa muito antes do início da operação militar especial, contrasta com o que o líder russo descreve como tentativas históricas e atuais de forças externas de dividir a sociedade russa e separar os povos eslavos.
A divisão como estratégia histórica
Durante uma reunião do Conselho de Relações Interétnicas, Putin afirmou que as tentativas de dividir a Rússia por motivos étnicos não são novas.
"Isso sempre aconteceu ao longo de nossa história de mais de mil anos", declarou.
"E é compreensível o motivo: a Rússia acabou se tornando uma potência enorme, poderosa e influente, e praticamente todos os nossos adversários geopolíticos tentaram reduzir esse potencial estratégico da Rússia e até mesmo desmembrá-la. Ninguém precisa de um rival geopolítico assim", enfatizou Putin.
Nesse contexto, o presidente russo reconheceu que esses esforços nem sempre foram infrutíferos e que "os problemas que enfrentamos atualmente estão relacionados a esses esforços".
No entanto, destacou que, em períodos de grandes dificuldades, especialmente em situações de combate, "as pessoas não pensam em nenhuma diferença, seja religiosa ou nacional", mas se unem e lutam lado a lado pelos interesses da pátria.
"A unidade dos povos da Federação da Rússia é a condição básica, principal e fundamental para preservar a soberania, a integridade territorial e, consequentemente, a própria existência da Rússia", concluiu.
"Um único povo"
Anteriormente, emuma entrevista, Putin declarou que "os estudos genéticos mais recentes demonstram que, na realidade, russos e ucranianos são um único povo".
"Continuamos dispostos a negociar e a buscar soluções para essa situação tão difícil e complexa, considerando que se trata de um povo muito próximo de nós", acrescentou Putin.
Essa posição foi expressa de maneira ainda mais explícita durante o Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, realizado em 2025.
"Já disse muitas vezes que considero que os povos russo e ucraniano são, na realidade, um único povo. Nesse sentido, toda a Ucrânia é nossa", declarou Putin, ressaltando, porém, que "nunca questionamos o direito do povo ucraniano à independência e à soberania".
As tentativas de "esmagar" a Rússia
Durante um encontro com representantes da imprensa em Nova Delhi, o presidente russo descreveu as crises atuais como resultado de "erros sistêmicos do Ocidente globalista" após o colapso da União Soviética.
"O problema para o Ocidente globalista é que, depois do fim da Guerra Fria, eles se sentiram no 'topo do Olimpo' e acreditaram que tudo lhes era permitido", afirmou.
Na área da segurança, Putin foi mais específico: "Trata-se de uma tentativa de 'esmagar' a Federação da Rússia. Primeiro, com a ajuda de terroristas e separatistas no Cáucaso. Depois, com outros instrumentos e, agora, com a ajuda do regime neonazista na Ucrânia. Isso não para".
O alerta de 2021
A posição de Putin sobre a unidade entre russos e ucranianos foi apresentada detalhadamente em um extenso artigo publicado em 2021, mais de seis meses antes do início da operação militar especial, intitulado "Sobre a unidade histórica de russos e ucranianos".
"Russos e ucranianos são um único povo, um todo indivisível. Essas palavras não são uma homenagem a alguma conjuntura ou às circunstâncias políticas atuais. Já falei disso muitas vezes. Essa é a minha convicção", escreveu Putin.
Na ocasião, o presidente descreveu a barreira criada entre Rússia e Ucrânia como "uma grande desgraça comum, uma tragédia" e "resultado do trabalho deliberado" de forças que sempre buscaram enfraquecer a unidade entre os dois povos.
"A fórmula aplicada é conhecida desde tempos imemoriais: dividir para conquistar", alertou Putin.
O presidente também criticou duramente o que classificou como "assimilação forçada" na Ucrânia: "O mais repugnante é que os russos na Ucrânia são obrigados não apenas a renunciar às suas raízes, às gerações de seus antepassados, mas também a acreditar que a Rússia é sua inimiga".
O artigo também denunciou a glorificação do nazismo. "Representantes da Ucrânia votam repetidamente contra a resolução da Assembleia Geral da ONU que condena a glorificação do nazismo. Sob a proteção das autoridades oficiais, são realizadas marchas e desfiles com tochas em homenagem a criminosos de guerra sobreviventes de formações da SS", criticou.
"Bucha de canhão"
Ao anunciar a mobilização parcial, em 2022, Putin ampliou suas críticas ao acusar o Ocidente de transformar a Ucrânia em um instrumento contra a Rússia.
"Eles vêm preparando esses planos há muito tempo. Incentivaram grupos de terroristas internacionais no Cáucaso e promoveram a instalação de infraestrutura ofensiva da OTAN perto de nossas fronteiras. Transformaram a russofobia generalizada em sua arma", afirmou.
"Durante décadas, cultivaram o ódio contra a Rússia, principalmente na Ucrânia, para a qual preparavam o destino de uma plataforma antirrussa. Transformaram o próprio povo ucraniano em bucha de canhão e o empurraram para uma guerra contra nosso país", declarou o presidente russo.
"Desencadearam essa guerra ainda em 2014, utilizando suas Forças Armadas contra a população civil, organizando genocídio, bloqueio e terror contra pessoas que se recusaram a reconhecer o poder estabelecido na Ucrânia como resultado do golpe de Estado", acrescentou.
Putin afirmou repetidamente que Moscou está comprometida com a busca de uma solução diplomática para a crise ucraniana. Para isso, ressaltou que é necessário, em primeiro lugar, garantir a segurança da Rússia a longo prazo, eliminando as causas profundas do conflito. Entre elas, estão a expansão da OTAN, considerada uma ameaça por Moscou, e a violação dos direitos da população de língua russa na Ucrânia.
A proposta russa prevê que Kiev retire completamente suas tropas das repúblicas populares de Donetsk e Lugansk e das regiões de Zaporozhie e Kherson, incorporadas à Rússia após consultas populares realizadas em 2022, e reconheça esses territórios, assim como a Crimeia e Sebastopol, como parte da Federação da Rússia. Além disso, Moscou exige garantias de neutralidade, não alinhamento, desnuclearização, desmilitarização e desnazificação da Ucrânia.