Cinco disputas pelo Senado dos EUA podem provocar uma reviravolta política no governo Trump

Gastos recordes de US$ 573 milhões no Texas e o racha entre democratas no Michigan são alguns dos fatores que antecipam uma eleição de meio de mandato marcada por disputas acirradas e possíveis surpresas.

Às vésperas das eleições de meio de mandato, os Estados Unidos se preparam para decidir qual será a composição do Congresso que Donald Trump terá de enfrentar nos dois últimos anos de seu mandato na Casa Branca. O controle do Senado pode depender de resultados em apenas alguns estados, e algumas das disputas mais acirradas ocorrem em lugares inesperados, como no Texas, que não elege um senador democrata desde 1988, e na Carolina do Sul, onde Trump venceu com ampla vantagem há dois anos.

Mais do que definir a distribuição das cadeiras no Congresso, as eleições também podem influenciar os rumos da política americana. Os resultados mostrarão o peso dos grandes doadores nas campanhas, o espaço que ainda resta para os republicanos moderados e a dimensão do apoio a Trump nos estados que lhe deram vitória.

Racha em Michigan

Em Michigan, um dos estados decisivos na disputa pelo Senado, o democrata Abdul El-Sayed enfrenta o republicano Mike Rogers. No entanto, a campanha ganhou novos contornos depois que a congressista democrata Haley Stevens, derrotada por El-Sayed nas primárias de agosto — eleições internas que definem os candidatos de cada partido —, declarou publicamente seu apoio a Rogers.

A mudança de posição de Stevens teve forte repercussão por ocorrer na reta final da campanha, justamente quando Michigan já era considerado um dos estados-chave na disputa nacional. Antes de a controvérsia vir à tona, El-Sayed aparecia na liderança das pesquisas, segundo estimativas do The New York Times.

O rompimento entre Stevens e El-Sayed transformou a disputa em algo maior do que uma simples corrida eleitoral acirrada. O episódio expôs divisões internas no Partido Democrata e criou um problema político em um estado que os democratas não podem se dar ao luxo de perder.

Segundo o The New York Times, a disputa em Michigan também representa a melhor oportunidade dos republicanos de conquistar uma cadeira no Senado.

"Um rosto bonito" contra um veterano da política

Segundo a Associated Press (AP), as eleições de meio de mandato em Ohio serão um teste para medir até que ponto os republicanos conseguirão manter sua força em um estado que, na última década, se tornou cada vez mais conservador.

A disputa coloca frente a frente o republicano Jon Husted, atual senador, e o democrata Sherrod Brown, que ocupou a outra cadeira de Ohio no Senado por três mandatos até ser derrotado pelo republicano Bernie Moreno em 2024. Como lembra a AP, Husted chegou ao Senado em 2025 após ser nomeado pelo governador Mike DeWine para ocupar a vaga deixada por JD Vance, que assumiu a vice-presidência dos Estados Unidos.

A decisão de Brown de voltar à disputa após a derrota em 2024 mudou o cenário eleitoral. Embora concorra agora como candidato, seu amplo reconhecimento público e sua longa trajetória no Senado fizeram com que os republicanos passassem a tratá-lo como um adversário especialmente competitivo.

Husted conta com o apoio declarado de Donald Trump, que chegou a elogiar sua aparência, chamando-o de "uma pessoa perfeita, um cara bonito". Na ocasião, o presidente brincou que havia examinado seus atributos físicos, mencionando até mesmo suas costas, ombros, pés, mãos e queixo.

Entre os principais temas da campanha está o custo de vida. Brown associou a guerra de Trump contra o Irã à alta dos preços da gasolina e criticou Husted por votar repetidamente contra resoluções que limitariam os poderes de guerra do presidente e poderiam obrigá-lo a encerrar o conflito.

US$ 573 milhões em jogo por uma cadeira no Senado do Texas

Uma das disputas mais acirradas das eleições de meio de mandato ocorre no Texas, onde o procurador-geral do estado, o republicano Ken Paxton, apoiado por Donald Trump, enfrenta o democrata James Talarico, de 37 anos.

A corrida está entre as sete disputas pelo Senado consideradas mais competitivas. As pesquisas apontam para um empate técnico entre os candidatos ou uma pequena vantagem para Talarico, dentro da margem de erro.

O Texas não elege um senador democrata desde 1988, um ano antes do nascimento de Talarico. Além disso, os democratas não vencem uma eleição estadual no território desde 1994. Embora pesquisas anteriores já tenham indicado possibilidades de vitória para o partido, esses resultados nunca se converteram em votos. Por isso, uma eventual vitória de Talarico representaria uma mudança histórica na política do estado.

Outro fator decisivo pode ser o eleitorado latino, que reúne mais de 6,5 milhões de eleitores aptos a votar no Texas e pode ter um papel fundamental no resultado.

A disputa também bateu recordes de financiamento: as campanhas já somam US$ 573 milhões em gastos e recursos reservados para publicidade política, tornando-se a eleição não presidencial mais cara da história dos Estados Unidos.

Segundo a Associated Press (AP), a corrida também atraiu a atenção do bilionário Elon Musk, que investiu pelo menos US$ 10 milhões na disputa. Em meio à campanha, Talarico resumiu seus adversários como "o homem mais rico do mundo, o homem mais poderoso do mundo e o político mais corrupto do Texas".

A última republicana moderada

Outra disputa importante para o controle do Senado acontece no Maine, onde a republicana Susan Collins, senadora desde 1997, tenta conquistar seu sexto mandato. Collins preside a influente Comissão de Orçamento e é a última senadora republicana da região da Nova Inglaterra. Sua reeleição, porém, enfrenta dificuldades: em 2024, o estado votou na democrata Kamala Harris. Entre as disputas mais acirradas pelo Senado neste ano, esta é a única em um estado vencido por Harris.

Seu adversário é o democrata Troy Jackson, de 58 anos, ex-presidente do Senado estadual e próximo do senador independente Bernie Sanders, representante da ala progressista. Jackson defende propostas como o Medicare para Todos e a ampliação dos direitos trabalhistas. Sua campanha tem dado destaque ao aumento do custo de vida. Ele entrou na disputa em julho depois que o candidato democrata anterior, Graham Platner, desistiu de concorrer em meio a acusações de agressão sexual, que ele negou.

Segundo o Politico, ao longo do outono,Collins procurou destacar suas divergências em relação a Trump para reforçar sua imagem de independência e ressaltar os resultados de seu trabalho em benefício de um estado tradicionalmente democrata.

De acordo com a publicação, a disputa vai além de uma cadeira no Senado: também coloca em questão o espaço que ainda existe na política americana para o perfil moderado e institucionalista representado por Collins.

Na pesquisa mais recente do The New York Times e do Siena College, Jackson aparece com 51% das intenções de voto, contra 45% de Collins. A margem de erro é de 4,3 pontos percentuais. A senadora, porém, já contrariou as previsões das pesquisas: em 2020, a democrata Sara Gideon aparecia à frente, mas Collins acabou conquistando quase 51% dos votos.

A herdeira que "não entende" de segurança

Outra disputa inesperadamente acirrada está em andamento na Carolina do Sul, onde Trump venceu em 2014 por quase 18 pontos percentuais e onde nenhum senador democrata jamais foi eleito neste século.

Em julho, durante sua campanha à reeleição, o senador Lindsey Graham* faleceu. O governador Henry McMaster, por recomendação de Trump, nomeou a irmã do falecido, Darline Graham, que até então liderava uma comissão estadual, para substituí-lo.

A campanha de Graham está se mostrando difícil. No debate de agosto, ela admitiu que "não entende muito" sobre segurança nacional e acrescentou que "não é o seu foco". Ela enfrenta uma rival inesperadamente forte, a democrata Annie Andrews, pediatra com posições centristas em questões como imigração.

As pesquisas mostram um empate ou uma pequena vantagem para Graham. Na pesquisa do New York Times/Siena, ambas as candidatas obtiveram 48% das intenções de voto, enquanto Andrews recebeu 57% dos eleitores independentes e 7% dos republicanos.

* Incluído na lista de terroristas e extremistas da Rússia*