A ex-presidente da Argentina Cristina Fernández de Kirchner prevê uma derrota de Donald Trump nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos e aposta que o resultado poderá impulsionar a esquerda na América Latina. A declaração foi feita em entrevista ao Washington Post, a primeira concedida pela política a um veículo internacional desde sua condenação por corrupção.
"Paradoxalmente, o homem que fez de tudo para ajudar governos de direita a vencer na América Latina perderá as eleições em seu próprio país", afirmou Kirchner, que espera uma nova onda progressista a partir do resultado eleitoral americano.
Aos 73 anos, a ex-presidente também manifestou interesse em disputar novamente a Presidência argentina em 2027, quando Javier Milei deverá buscar a reeleição. Questionada sobre uma eventual candidatura após recuperar seus direitos políticos, respondeu: "Quando eu recuperar meus direitos políticos, por que não?".
Kirchner cumpre pena de seis anos de prisão domiciliar por corrupção e está proibida permanentemente de ocupar cargos públicos. Apesar das restrições, permanece à frente do Partido Justicialista e divide a liderança da Frente Pátria, maior bloco de oposição no Congresso argentino.
Recurso à ONU
A defesa da ex-presidente apresentou um pedido ao Comitê de Direitos Humanos da ONU para revisar sua condenação, alegando violações ao devido processo legal e a direitos fundamentais. Kirchner foi condenada por irregularidades em contratos de obras públicas na província de Santa Cruz durante seu governo, mas nega as acusações e considera o processo politicamente motivado.
O advogado Rafael Valim afirmou que a prioridade é restabelecer os direitos políticos de Kirchner e reverter sua inelegibilidade. O comitê pode avaliar eventuais violações de direitos, mas não tem autoridade para anular decisões judiciais argentinas. Uma manifestação favorável deverá ser submetida à Justiça do país.
Críticas ao governo Milei
Durante a entrevista, Kirchner também criticou a política econômica de Javier Milei, afirmando que parte da população enfrenta dificuldades financeiras. "Muitos argentinos estão frustrados porque suas vidas não melhoraram, o dinheiro não dura até o fim do mês e eles veem um governo que não apenas deixa de fazer algo pelos pobres, mas os ataca ativamente", declarou.
A ex-presidente reconheceu, porém, que os governos peronistas contribuíram para a derrota eleitoral de 2023. Durante a administração de Alberto Fernández, da qual participou como vice-presidente, a inflação anual chegou a 211% e a pobreza atingiu 40%. Segundo Kirchner, houve uma deterioração da valorização do trabalho, com trabalhadores recebendo rendimentos semelhantes ou inferiores aos de beneficiários de programas sociais.
Para Kirchner, a recuperação da esquerda dependerá da capacidade de compreender a insatisfação dos eleitores e apresentar propostas concretas para enfrentar as dificuldades econômicas. "A história não é escrita em linhas retas. Há avanços e retrocessos. Mas o povo sempre volta", afirmou.