Reviravolta eleitoral na Sérvia: o que está acontecendo?

A Lista Estudantil obteve uma maioria contundente no Parlamento, enquanto o ex-presidente Aleksandar Vucic, foi obrigado a reconhecer sua derrota.

As eleições parlamentares da semana passada na Sérvia culminaram na vitória da legenda de oposição Lista Estudantil, contra a aliança Sérvia Unida, formada em torno do Partido Progressista do ex-presidente Aleksandar Vucic.

Esses resultados, cujas consequências ainda são difíceis de prever, tratam-se de uma reviravolta significativa que foi precedida por uma longa série de acontecimentos, entre eles protestos que abalaram o país nos últimos dois anos.

Tragédia em Novi Sad

No dia 1º de novembro de 2024, uma marquise recém-construída da estação ferroviária de Novi Sad, a segunda maior cidade do país, desabou, causando a morte de 16 pessoas, entre elas quatro menores de idade, causando uma forte comoção no país.

Segundo a radiotelevisão pública sérvia (RTS), logo na sequência do ocorrido, estudantes e representantes da oposição parlamentar organizaram manifestações em memória das vítimas que resultaram em confrontos com a polícia.

Os estudantes reivindicavam ao governo a publicação de todos os documentos relacionados à reconstrução da estação ferroviária de Novi Sad, a responsabilização dos autores das agressões contra os participantes das manifestações, a retirada das acusações contra os estudantes detidos durante os protestos e um aumento de 20% nos recursos orçamentários destinados ao ensino superior.

Posição do Governo

Por sua vez, o ex-presidente sérvio Aleksandar Vucic afirmou que as autoridades haviam atendido às exigências dos estudantes e publicado milhares de páginas de documentos relacionados à reconstrução da estação ferroviária. Segundo ele, a tragédia não foi consequência da corrupção, mas sim de erros profissionais. O então presidente chegou a classificar as mobilizações como uma tentativa de organizar uma "revolução colorida".

Em janeiro de 2025, Vučić anunciou que foram apresentadas acusações contra 13 pessoas por sua suposta responsabilidade na tragédia de Novi Sad. Além disso, manifestou disposição em conceder perdão a 13 estudantes e professores que respondiam a processos relacionados aos protestos. Também anunciou uma reorganização do Governo, que previa a substituição de metade de seus ministros.

No entanto, os protestos continuaram. Em setembro de 2026, Vucic anunciou a dissolução do Parlamento e a convocação de eleições antecipadas para o dia 25 de outubro. Comunicou também que encabeçaria a lista eleitoral de seu partido e se apresentaria como candidato ao cargo de primeiro-ministro.

No dia 27 de setembro, em decorrência disso, apresentou sua renúncia, de modo que as funções de presidente interino passaram a ser exercidas por Ana Brnabic, ex-presidente do Parlamento.

O que é a 'Lista Estudantil'?

A 'Lista Estudantil' não é um partido político, mas sim um agrupamento de cidadãos legalmente registrado que surgiu do movimento de protesto.A lista eleitoral era composta principalmente por pessoas que não eram estudantes, mas que haviam sido escolhidas para representar o movimento no Parlamento. Entre elas, encontravam-se professores, médicos e personalidades do mundo da cultura, provenientes de diferentes regiões do país.

O programa da 'Lista Estudantil' contempla, entre outras coisas, a erradicação da corrupção, a introdução de inovações no sistema educacional, o apoio a empresários e agricultores nacionais, o acesso a moradias acessíveis para casais jovens e a garantia de um acesso equitativo a farmácias e medicamentos, inclusive em zonas rurais.

Resultados eleitorais

A Lista Estudantil obteve 52,54% dos votos nas eleições parlamentares, o que lhe permitiu conquistar 140 das 250 cadeiras e formar uma maioria parlamentar sem a necessidade de apoio de outros partidos. Por sua vez, a lista Sérvia Unida recebeu 39,29% dos votos, enquanto a legenda Direita Autêntica alcançou 0,82%, e a Sérvia Europeia, 0,28%. Mais de 4,2 milhões de pessoas compareceram às urnas.

Vucic reconheceu a derrota de sua aliança. "Segundo a amostra estratificada, está claro que perdemos estas eleições. A lista do bloco estudantil venceu; eles conquistarão entre 135 e 140 cadeiras, nós temos cerca de 105. Ninguém mais entrou na Assembleia", anunciou. Além disso, classificou os resultados eleitorais como a consolidação de uma "revolução" que, segundo afirmou, contou com o apoio direto de vários países europeus e do chamado "Estado profundo" norte-americano.

O que vem agora?

Fiódor Lukyanov, editor-chefe da revista *Rússia na Política Global*, considera que poucos poderiam ter previsto tais resultados eleitorais na Sérvia. Em sua avaliação, será necessário tempo para compreender as razões desse desfecho.

O analista observou que, enquanto o próprio Vucic classificou o ocorrido como uma "revolução" apoiada pela Europa, outros especialistas veem um cenário mais similar com a derrota de Orbán na Hungria — marcado pelo desgaste após um longo período no poder e pelo peso excessivo da personalidade e dos interesses do líder na política nacional.

"Evidentemente, houve mais de um fator em jogo. O que também está claro é que a Sérvia está entrando em uma nova era. O exercício de equilíbrio de Vucic, cada vez mais complexo e intrincado, provavelmente dará lugar a uma tentativa de orientar o país, de forma decisiva, em direção à União Europeia. A experiência da Hungria é reveladora nesse sentido. E a Rússia não deveria esperar nada de bom disso", afirmou Lukyánov.

Ao mesmo tempo, destacou que a sociedade sérvia é diferente da húngara por sua considerável simpatia pela Rússia. Segundo o analista, logo ficará claro se esse sentimento pode impulsionar o surgimento de uma nova oposição, desta vez contra um rumo abertamente pró-europeu. Além disso, alertou que a UE tentará tirar o máximo proveito da derrota de outro grupo de forças consideradas "pró-Rússia".

"Qualquer que seja o desfecho, se há um denominador comum nas eleições realizadas por toda a Europa, provavelmente é este: os cidadãos de diferentes países estão desencantados com o *status quo* e com as elites governantes, independentemente de sua orientação política — mesmo quando estas se situam em extremos opostos do espectro ideológico", concluiu.