Durante uma sessão do Comitê de Orçamento da Câmara dos Representantes do Japão, realizada nesta quarta-feira (14), a primeira-ministra Sanae Takaichi afirmou que o governo estudará a possibilidade de incorporar submarinos de propulsão nuclear às Forças de Autodefesa. "Aprofundaremos o estudo concreto e realista dessa possibilidade, levando em conta a crescente atividade militar dos países vizinhos", declarou.
O portal Global Times lembra que o uso de energia nuclear para fins militares é proibido no Japão em virtude da Lei Básica de Energia Atômica, aprovada em 1955 — uma disposição que tem sido respeitada pelos sucessivos governos.
"As declarações de Takaichi sobre a possibilidade de incorporar submarinos de propulsão nuclear representam uma ruptura conceitual significativa em relação à Lei Básica de Energia Atômica do Japão e aos históricos 'Três Princípios Não Nucleares' que a sustentam", observou Lu Yaodong, pesquisador do Instituto de Estudos Japoneses da Academia Chinesa de Ciências Sociais.
Lu argumentou que as declarações de Takaichi não foram improvisadas, mas sim um passo deliberado e agressivo, vinculado à revisão dos principais documentos de segurança nacional prevista para este ano, o que ameaça minar princípios de longa data.
"O Japão está utilizando os submarinos de propulsão nuclear como um meio de desafiar o tabu nuclear estabelecido após a Segunda Guerra Mundial. Trata-se de uma mudança muito perigosa", acrescentou.
Reação em cadeia
Zhou Yongsheng, professor da Universidade de Relações Exteriores da China, ressaltou que submarinos são armas ofensivas destinadas a realizar operações em alto-mar e que equipá-los com sistemas de propulsão nuclear não pode ser considerado uma "modernização convencional de equipamento militar".
Ele lembrou que os Três Princípios Não Nucleares do Japão proíbem o país de fabricar, possuir ou permitir a presença de armas nucleares em seu território. Embora um submarino de propulsão nuclear não equivalha a uma bomba atômica, sua incorporação conferiria, na prática, ao Japão a capacidade de utilizar energia nuclear para fins militares, explicou.
"Uma vez aberta a caixa de Pandora da incorporação de submarinos de propulsão nuclear, será estabelecido um precedente extremamente negativo, que desencadeará uma reação em cadeia de corridas armamentistas regionais. Se isso ocorrer, lançará uma sombra sobre o regime global de não proliferação nuclear", advertiu Zhou.
Adeus ao tabu nuclear
No governo japonês, discute-se com frequência cada vez maior a possibilidade de flexibilizar a legislação nuclear. Em 1971, as autoridades japonesas adotaram os Três Princípios Não Nucleares: não fabricar, não possuir e não permitir a instalação de armas nucleares em seu território. No entanto, o ministro da Defesa, Shinjiro Koizumi, pede agora que esse tabu seja reconsiderado.
"Para o Japão, é um tema difícil de abordar, mas há uma questão que não podemos evitar: a nuclear", declarou o ministro. Em sua avaliação, o país deve "debater e desenvolver todas as políticas sem tabus", em alusão à mudança no cenário estratégico internacional.
Como exemplo, mencionou o fortalecimento do arsenal nuclear francês e a decisão da Finlândia de permitir a instalação desse tipo de arma em seu território.
A China e a Rússia manifestaram-se sobre a crescente militarização do Japão. Pequim criticou o governo japonês por evitar uma reflexão sincera sobre as lições da Segunda Guerra Mundial e por diluir sua responsabilidade histórica, ressaltando que as ações de Tóquio "alarmaram ainda mais os vizinhos asiáticos e a comunidade internacional quanto ao que o Japão está realmente fazendo".
Moscou, por sua vez, rogou a Tóquio que abandone as tentativas de "maquiar as páginas desumanas de sua própria história", visto que o país foi "um dos principais agressores da Segunda Guerra Mundial".