Milhares de estudantes, professores e trabalhadores universitários se reuniram na quinta-feira (15) em frente ao Congresso da Argentina, em Buenos Aires, para exigir que o governo de Javier Milei cumpra a Lei de Financiamento Universitário.
No entanto, o que havia sido convocado como um ato em defesa da educação pública terminou com graves incidentes, com forças de segurança utilizando gás lacrimogêneo, balas de borracha e caminhões-pipa com jatos d’água contra os manifestantes.
Uma mobilização em defesa da educação pública
A quinta Marcha Federal Universitária foi convocada por estudantes, professores, funcionários técnico-administrativos e reitores, com o apoio de sindicatos e organizações sociais.
Sob o lema "Pela educação, pela soberania e pela democracia", os participantes exigiram mais recursos para as universidades públicas, reajustes salariais e o cumprimento de uma lei aprovada pelo Congresso que o Poder Executivo ainda não implementou integralmente.
Desde as primeiras horas da tarde, diferentes grupos de manifestantes começaram a chegar à Praça do Congresso para participar do ato principal.
A concentração ocorreu em meio a uma grande operação de segurança, com ruas interditadas, barreiras de proteção e um grande número de policiais mobilizados nos arredores do Palácio Legislativo.
O começo dos confrontos
A situação mudou poucos minutos antes do ato principal, quando um grupo de pessoas encapuzadas começou a depredar o mobiliário urbano e a arremessar pedras e outros objetos contra as barreiras que protegiam o Congresso.
Imagens divulgadas pelo canal TN mostraram pessoas quebrando bancos e arrancando pedaços das calçadas para usá-los como projéteis.
As forças de segurança responderam com gás lacrimogêneo, disparos de balas de borracha e jatos de água sob pressão. Embora os distúrbios tenham sido inicialmente provocados por um grupo reduzido, a intervenção policial atingiu numerosos participantes que protestavam pacificamente.
Entre eles estavam estudantes, professores e famílias que estavam na manifestação para reivindicar um futuro para a educação pública.
Os confrontos deixaram pelo menos 8 policiais feridos e mais de 30 pessoas detidas em Buenos Aires, entre elas 2 menores de idade, informou o jornal La Nación.
"Está ficando realmente muito complicado"
A repressão também atingiu profissionais da imprensa que cobriam a mobilização.
O correspondente da RT na Argentina, Ricardo Romero, foi atingido por gás lacrimogêneo enquanto fazia uma transmissão ao vivo da avenida Rivadavia com a rua Paraná, na região central de Buenos Aires.
"Está ficando realmente muito complicado seguir no ar e continuar contando o que está acontecendo", disse o jornalista entre tosses. Romero afirmou que os manifestantes ao seu redor "em nenhum momento estavam provocando incidentes".
Um dos episódios mais graves foi registrado pelas câmeras de televisão: uma granada de gás lançada pelas forças de segurança atingiu a cabeça de uma mulher que participava do protesto.
Além disso, um cinegrafista do canal C5N foi agredido no rosto por um indivíduo encapuzado enquanto tentava filmá-lo.
O ataque foi registrado durante uma transmissão ao vivo e provocou novas denúncias sobre a presença de supostos infiltrados entre os manifestantes.
O líder do bloco da União pela Pátria na Câmara dos Deputados, Germán Martínez, criticou duramente a operação policial.
"A repressão que estão promovendo não faz sentido algum. A marcha transcorria de maneira absolutamente normal e pacífica", afirmou, denunciando que até mesmo parlamentares foram atingidos pelo gás.
Reivindicações da comunidade universitária
O protesto reuniu estudantes, professores, trabalhadores universitários, sindicatos e organizações sociais que exigem a implementação da lei de financiamento, aprovada pelo Congresso e posteriormente vetada por Milei.
A norma foi ratificada pelo Parlamento, mas continua sem ser aplicada, em meio a uma disputa judicial entre as universidades e o Poder Executivo.
A comunidade universitária exige a atualização dos recursos destinados ao funcionamento das instituições, a recomposição dos salários de professores e funcionários técnico-administrativos diante da inflação e mais investimentos em pesquisa científica.
Os manifestantes denunciaram que os cortes orçamentários promovidos pelo governo Milei colocam em risco a qualidade do ensino, as atividades acadêmicas e a continuidade dos projetos de pesquisa.