A Europa volta a recorrer ao manual de sempre: quando algo dá errado ou incomoda, a culpa é da Rússia.
Desta vez, foi o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, que resgatou o Brexit de dez anos atrás para acusar Moscou de ter interferido na votação. O problema é que seus próprios compatriotas, de Boris Johnson ao chefe do MI5, encarregaram-se de desmenti-lo.
Burnham busca o rastro russo
No podcast The Rest Is Politics, o primeiro-ministro britânico afirmou, no domingo (11), que era importante deixar "registro público" de que a Rússia havia interferido no referendo sobre o Brexit.
"Ao chegar a Downing Street, fiz a pergunta: 'Houve interferência da Rússia no referendo de 2016?'. E recebi uma resposta clara: 'Sim, houve'". Burnham não explicou de que maneira, segundo ele, a Rússia interferiu no referendo, nem detalhou em quais provas essa afirmação se baseava.
No entanto, o primeiro-ministro apressou-se em atribuir também à interferência russa a ascensão, na França e na Alemanha, de partidos insatisfeitos com os rumos adotados por seus líderes.
"Quero dizer, agora é importante deixar claro esses pontos e, acredito, ajudar os eleitores da Alemanha e da França a entender que parte dessa política é instigada por nossos inimigos, especificamente a Rússia", disse ele.
Fogo amigo em Londres
As palavras de Burnham indignaram a classe política britânica, sobretudo aqueles que defenderam o Brexit. Até mesmo Boris Johnson, que sacrificou sua carreira no altar da luta contra a Rússia, afirmou que não há provas da interferência de Moscou.
"Assim que assumi o cargo de ministro das Relações Exteriores, fiz a mesma pergunta aos serviços de segurança e eles me responderam que não havia provas de nenhuma interferência bem-sucedida no referendo de 2016, nem da Rússia nem de qualquer outra potência", observou o ex-primeiro-ministro.
Katie Lam, secretária de Comunidades do gabinete-sombra, afirmou que é "profundamente irresponsável que o primeiro-ministro divulgue acusações não comprovadas sobre uma interferência russa apenas porque não gosta do resultado de uma votação democrática".
Por fim, o chefe do MI5, Ken McCallum, pediu aos cidadãos que não exagerassem o impacto da suposta influência russa. "Há uma diferença realmente importante entre uma tentativa de interferência e um resultado alterado... É muito importante focar na diferença entre o que pode ter sido tentado e o que realmente aconteceu", disse na terça-feira (13) o chefe da inteligência britânica.
O Brexit em revisão
Não é a primeira vez que o recém-empossado primeiro-ministro britânico levanta a questão do Brexit. Durante a conferência do Partido Trabalhista em setembro, Burnham afirmou que o Brexit "causou mais danos do que benefícios" e comprometeu-se a iniciar uma revisão profunda da relação do país com a União Europeia.
Em uma entrevista posterior, Burnham voltou a defender que Londres deveria estudar diferentes opções para sua futura relação com a UE, incluindo não apenas uma eventual reintegração plena, mas também um retorno ao mercado único europeu ou à união aduaneira.
A ideia, no entanto, recebeu críticas. Em uma conversa com a RT, George Galloway, político britânico e fundador do Partido dos Trabalhadores da Grã-Bretanha, criticou a intenção de Londres de retornar à União Europeia.
"Andy Burnham não tem absolutamente nenhum direito de reintegrar o Reino Unido à União Europeia. Na verdade, pode-se dizer que ele não tem direito de fazer absolutamente nada. É um primeiro-ministro que ninguém elegeu, algo muito novo na política britânica", afirmou Galloway.
"Metaforicamente falando, quando a Copa do Mundo começou, ele nem sequer era deputado, e quando terminou, já era primeiro-ministro. Portanto, ele não tem mandato algum para fazer algo tão importante e potencialmente tão divisivo quanto levar o Reino Unido de volta à União Europeia", observou.
Galloway lembra que a saída da UE foi decidida pelos próprios britânicos nas urnas e que, em sua opinião, apenas eles poderiam revertê-la por meio de um novo referendo. "17,4 milhões de britânicos votaram a favor do Brexit. É a maior votação a favor de alguém ou de algo em toda a história do Estado britânico, e apenas outro referendo — que será muito disputado, garanto-lhes — poderia reverter a decisão de sair da União Europeia", apontou.
No entanto, para Galloway, a questão de fundo é outra: por que voltar a um bloco que, segundo ele, atravessa o seu pior momento?
"A União Europeia é um desastre, está caindo aos pedaços. Seus líderes são odiados pelos seus próprios povos. Os povos da Alemanha, da França e do Reino Unido odeiam abertamente seus líderes. Os da Itália também", afirmou.
"Imagine querer voltar a um clube cujo teto desabou, que está infestado de cupins e de todo tipo de podridão, e que embarcou em políticas externas desastrosas no Oriente Médio, na Ásia Ocidental e — talvez o mais grave de tudo — na Ucrânia", denunciou Galloway.
Na dúvida, a culpa é da Rússia
O pesquisador de política britânica Vasily Yegorov afirmou que a "cruzada" de Burnham contra o Brexit deve-se à sua intenção de rever os resultados do processo.
"Essas declarações não deixam dúvidas de que Burnham tem a firme intenção de rever o status quo em torno do Brexit, respeitado não apenas pelos primeiros-ministros conservadores, mas também por Keir Starmer", aponta.
"Quanto a quem realmente interferiu na campanha que antecedeu o referendo, basta lembrar a visita e os discursos de Barack Obama, que interveio abertamente e pediu votos contra a saída da UE. A essa lista podem-se acrescentar Hillary Clinton, Angela Merkel e François Hollande. A situação não parece muito equilibrada", acrescentou.
Envolver a Rússia para resolver problemas internos tornou-se, há muito tempo, uma receita europeia comprovada, que o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, resumiu de forma concisa.
"Vocês já ouviram o comandante supremo aliado dizer: 'Quando puderem, quando tiverem certeza de que se trata dos russos, ou quase certeza de que se trata dos russos, atribuam a responsabilidade aos russos', tal como fez a Estônia", declarou ele em 1º de outubro.
Ao que parece, os líderes do continente europeu levaram o conselho em conta.