EUA se retiram do Iraque: que país estão deixando após mais de 20 anos de presença militar?

O país árabe entra em nova fase sem tropas estrangeiras.

Em 30 de setembro, a missão militar da coalizão internacional liderada pelos EUA no Iraque chegou ao fim.

A retirada conclui uma presença militar que começou com a invasão americana de 2003, terminou formalmente em 2011 e retornou em 2014, desta vez a pedido de Bagdá, para combater o Estado Islâmico*.

Agora, as últimas forças deixaram as bases iraquianas e o país está entrando em uma fase em que terá que assumir diretamente a responsabilidade por sua segurança.

O governo iraquiano apresenta o momento como um passo rumo à plena soberania. As autoridades afirmam que não existem mais bases militares estrangeiras no país e que as forças nacionais controlam todo o território.

O chefe da Célula de Mídia de Segurança do Iraque, Saad Maan, declarou à Al Jazeera, no último sábado (26), que o país está preparado para assumir plenamente a gestão da sua própria segurança após a retirada da coalizão. 

Dilema da segurança

A questão fundamental não é apenas quais forças estão saindo, mas que tipo de país resta. O Iraque reconstruiu consideravelmente suas instituições de segurança desde a derrota territorial do Estado Islâmico, mas ainda precisa demonstrar que consegue manter, por si só, o equilíbrio entre o exército, as forças de segurança, as estruturas armadas ligadas às Forças de Mobilização Popular e os diversos centros de poder político e regional.

O problema das milícias é precisamente uma das principais questões que envolvem o novo cenário. Muitos grupos estão formalmente integrados às Forças de Mobilização Popular, que fazem parte do aparato de segurança do Estado, embora algumas de suas facções mantenham suas próprias estruturas e capacidade operacional.

O governo iraquiano propôs que as armas fossem colocadas sob controle estatal, mas diversas organizações armadas têm se mostrado relutantes em entregar seus arsenais.

Algumas das principais facções armadas, incluindo o Kataib Hezbollah e o Harakat Hezbollah al-Nujaba, recusaram-se publicamente a entregar seus arsenais enquanto tropas estrangeiras permanecerem no país ou aeronaves "hostis" aparecerem no espaço aéreo iraquiano.

O Iraque se encontra em um paradoxo. Por um lado, o Estado reivindica o monopólio do uso da força como condição para consolidar sua soberania. Por outro lado, parte do poderio militar existente no país está distribuída entre organizações que mantêm autonomia política e operacional.

A retirada dos EUA não resolve automaticamente a contradição; simplesmente deixa Bagdá para lidar com ela sem uma presença militar estrangeira no terreno.

Questão curda

A questão curda acrescenta outra camada de complexidade. Nos últimos anos, a região do Curdistão iraquiano desfrutou de estreita cooperação militar com as forças dos EUA e da coalizão.

Com a retirada destas, as autoridades curdas expressaram preocupação com a perda de certas capacidades, particularmente a defesa aérea.

O Ministério dos Assuntos Peshmerga ("Peshmerga" são os combatentes curdos) alertou que a retirada dos EUA não será acompanhada por um sistema alternativo de defesa aérea e reiterou que Bagdá será responsável pela proteção do espaço aéreo iraquiano.

As autoridades do Curdistão iraquiano observaram que, durante a atual guerra travada pelos EUA e Israel contra o Irã, mais de mil drones e mísseis balísticos atingiram a região.

A questão que permanece após a retirada dos EUA é quem fornecerá os recursos necessários para detectar e responder a esses tipos de ameaças.

Bagdá indicou que espera incorporar novos sistemas de defesa antiaérea da Coreia do Sul, Turquia e Estados Unidos, embora nenhuma data de entrega tenha sido especificada.

Custo humano

Duas décadas de conflito deixaram um enorme custo humano. O projeto "Custos da Guerra" da Universidade Brown estima que, entre março de 2003 e março de 2023, entre 280.771 e 315.190 pessoas morreram no Iraque em decorrência das hostilidades.

A estimativa inclui entre 186.694 e 210.038 civis , entre 48.337 e 52.337 membros das forças militares e policiais iraquianas, entre 36.806 e 43.881 combatentes da oposição, além de militares estrangeiros, contratados, jornalistas e trabalhadores humanitários.

Entre as vítimas também estão militares dos EUA. Registros oficiais do Departamento de Defesa dos EUA listam 4.418 militares americanos mortos entre 2003 e 2010, incluindo 3.481 mortes por causas hostis e 937 por causas não hostis. Outros 123 militares americanos morreram durante a operação lançada contra o Estado Islâmico em 2014. 

O Reino Unido, principal aliado de Washington durante a invasão inicial, também registrou 179 militares e funcionários civis do Ministério da Defesa mortos durante a Operação TELIC, dos quais 136 morreram em decorrência de ações hostis.

Os números relativos às baixas iraquianas são os mais incertos. O Iraq Body Count, que compila mortes violentas documentadas a partir de registros de hospitais, necrotérios, meios de comunicação, ONGs e fontes oficiais, contabiliza atualmente entre 200.065 e 226.628 civis mortos pela violência desde a invasão de 2003, e cerca de 300 mil mortes violentas se forem incluídos os combatentes.

Nenhum número pode ser considerado definitivo devido às enormes dificuldades em registrar as mortes durante anos de guerra.

O que é indiscutível, no entanto, é a magnitude do custo humano: quando as últimas forças da coalizão deixaram o Iraque, deixaram para trás um país onde mais de 20 anos de invasão, ocupação, insurgência, guerra contra o Estado Islâmico e violência interna resultaram em milhares de vidas perdidas.

*Reconhecido como grupo terrorista na Rússia e proibido em seu território.