Pesquisadores questionaram a hipótese de que fontes hidrotermais alcalinas, no fundo dos oceanos, tenham sido o ambiente onde surgiu a vida na Terra.
A análise foi publicada em agosto na revista científica americana Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
Desde a descoberta dessas estruturas, a hipótese ganhou espaço entre parte dos cientistas. A ideia é que as fontes hidrotermais poderiam ter favorecido o surgimento das primeiras formas de vida graças à diferença química entre seus fluidos alcalinos e a água mais ácida dos oceanos, o que permitiria uma série de reações químicas.
Segundo a hipótese, fortes gradientes de prótons através de membranas formadas por sulfetos minerais, em ambientes hidrotermais, teriam fornecido energia para processos de quimiosmose e para a formação de protocélulas em fissuras no fundo do mar.
O novo estudo, porém, contesta algumas das condições necessárias para esse processo. Os pesquisadores afirmam que os antigos sistemas de serpentinização — reações entre água e rochas do manto terrestre — provavelmente apresentavam circulação hidrotermal mais superficial, fluxos menos concentrados e duração relativamente curta.
Condições inadequadas?
Os autores também analisaram o campo hidrotermal de Cidade Perdida, no Atlântico, usado como referência para estudar ambientes semelhantes aos que poderiam ter existido na Terra primitiva.
Segundo eles, os fluidos dessas fontes só se tornam altamente alcalinos depois de esfriar. Isso significa que nem os sistemas atuais nem os antigos teriam apresentado fortes gradientes de pH nas temperaturas características das fontes hidrotermais.
Outro problema seria a disponibilidade de enxofre. Os oceanos primitivos tinham baixas concentrações de sulfato e sulfeto, enquanto os sistemas de serpentinização também são pobres em enxofre.
Por isso, o sulfeto, um componente importante da hipótese, provavelmente estaria praticamente ausente em fontes semelhantes às de Cidade Perdida.
Experimentos de campo e de laboratório também indicam dificuldades na formação de hidrocarbonetos complexos, moléculas consideradas importantes para o metabolismo e para as membranas das protocélulas. Segundo os pesquisadores, a velocidade das reações nas temperaturas e nos períodos considerados relevantes teria dificultado sua produção.
Para os autores, essas limitações colocam em dúvida a forma como a hipótese das fontes hidrotermais alcalinas é formulada atualmente.
A conclusão também tem implicações para a busca por vida fora da Terra. Segundo os pesquisadores, a análise "exige uma reavaliação do potencial de vida fora da Terra", já que a hipótese das fontes alcalinas "tem alimentado especulações sobre a existência de vida em Marte, em luas geladas e em exoplanetas".