
O que o pai repassa aos filhos sem saber? A ciência responde

Uma pesquisa da USP descobriu que os hábitos de vida do pai influenciam a qualidade dos espermatozoides e assim alterar a saúde dos filhos no futuro.

Um estudo realizado pelo professor doutor Jorge Hallak, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) revelou que a epigenética, que estuda as modificações que ocorrem na forma como os genes são ativados ou desativados, sem alterar a sequência do DNA, influencia diretamente a capacidade reprodutiva masculina e a saúde das próximas gerações.
Os resultados do trabalho foram publicados em março no periódico internacional Epigenomics.
Os pesquisadores reiteram que os espermatozoides de homens expostos a fatores de risco como obesidade, álcool, cigarro, drogas e poluição podem se alterar em sua estrutura química.
Devido a isso, os filhos têm o risco de desenvolver as doenças graves.
Jorge Hallak recorre a um exemplo para mostrar o impacto do ambiente e do estilo de vida: enquanto uma região remota da Amazônia registra uma taxa da infertilidade masculina cerca de 6%, São Paulo apresenta uma taxa duas a três vezes maior.
O risco que os exames não detectam
Segundo os resultados do estudos, homens expostos a toxinas, estresse oxidativo e infecções — como a Covid-19 — têm espermatozoides que carregam mudanças epigenéticas, ou seja, defeitos no DNA.
Se um espermatozoide danificado fertiliza o óvulo, as alterações podem passar ao embrião aumentando os riscos de aborto ou e se manifestar anos depois no filho — elevando os riscos de diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares e neuropsiquiátricas (como autismo e esquizofrenia), malformações, infertilidade e câncer.
A conclusão mais alarmante é que as biópsias embrionárias convencionais não detectam essas modificações epigenéticas, pois estas não se enquadram em doenças cromossômicas clássicas, como a síndrome de Down.
"O pessoal faz muita biópsia de embrião para transferir embrião saudável. Esse tipo de modificação não pega nas biópsias de embrião. Porque não é uma doença, não é um [síndrome de] Down, não é uma translocação. É epigenético, é lá no DNA", explica o médico.
Médico recomenda tratamento precoce
O estudo mostra que tratar a causa da infertilidade masculina — como varicocele, estilo de vida e perda de peso — é mais custo-efetivo e menos arriscado para a saúde da mulher e das futuras gerações.
O testículo do homem tem "prazo de validade". Por isso, o especialista defende a avaliação precoce — já na adolescência ou no início da vida adulta —, para identificar as causas, congelar o sêmen e tratar o paciente antes dos 40 anos, quando pode descobrir que não tem mais espermatozoides.


