O secretário da Presidência do Uruguai, Alejandro Sánchez, afirmou nesta segunda-feira (21) que o país continuará trabalhando com médicos cubanos, apesar das pressões dos Estados Unidos para encerrar um histórico acordo de saúde com a ilha.
"Uruguai é um país soberano, livre (...). Os médicos cubanos no Uruguai deram uma contribuição substantiva", afirmou o funcionário em entrevista ao jornal El Eco Digital.
Sánchez disse que a atuação dos especialistas cubanos permitiu que mais de 100 mil pacientes uruguaios recuperassem a visão nas últimas duas décadas.
"[É] algo que reconhecemos e que faz parte de uma dívida que temos com eles", acrescentou. Sánchez afirmou que a relação diplomática com os Estados Unidos é "excelente", apesar de o Uruguai não concordar com algumas políticas do governo Donald Trump, a quem acusou de "se intrometer" em assuntos particulares de outros países.
"Nós vamos continuar trabalhando com os médicos cubanos porque o Uruguai, além de ser um país livre, permite que todo aquele que queira trabalhar no Uruguai possa fazê-lo (...). Os uruguaios fazem o que consideram melhor para o país, sem aceitar ordens alheias", advertiu.
O que aconteceu?
No início de setembro, o portal Búsqueda publicou um relatório do Departamento de Estado dos Estados Unidos sobre suposto "trabalho forçado" de médicos cubanos, versão difundida por Washington.
Segundo o documento, o Uruguai teria sido incluído em uma lista de 15 países que pagam diretamente ao governo de Cuba pela presença desses profissionais de saúde.
Fontes do governo uruguaio confirmaram ao Búsqueda que os Estados Unidos comunicaram a inclusão do país no relatório aos ministérios da Defesa e das Relações Exteriores por meio de um "non paper", uma comunicação diplomática considerada "não oficial", usada para apresentar posições em intercâmbios.
A notícia provocou repercussão no Uruguai e foi interpretada como uma pressão de Washington contra o governo do presidente Yamandú Orsi.
O jornalista Gabriel Pereyra chegou a revelar que o Departamento de Estado teria advertido que o Uruguai tinha que deixar de contratar os médicos cubanos que costumam atender no Hospital de Olhos. Caso contrário, o país seria colocado em uma "lista negra" e teria toda a ajuda militar suspensa.
A versão foi desmentida no início do mês pelo chanceler Mario Lubetkin, que afirmou que o Uruguai não havia recebido nenhuma comunicação oficial dos Estados Unidos sobre a presença dos médicos cubanos, embora tenha confirmado que o tema faz parte da agenda de diálogo bilateral.
"Esta experiência destes profissionais oftalmologistas foi uma experiência extraordinária no país. Eles devolveram a visão a muita, muita gente, fora de qualquer conotação política e de pensamento. As experiências que são positivas nós queremos e vamos preservar, naturalmente, em um marco de acordo e de diálogo com todos os atores e com nossos países parceiros, para que todos estejamos confortáveis", afirmou.