'Game of Thrones' no STF: caso Master acirra tensão entre Alexandre de Moraes e André Mendonça

Relator pediu informações sobre menções a Moraes, Gonet e Andrei em material apreendido com Daniel Vorcaro.

Novas referências a Alexandre de Moraes no material apreendido com Daniel Vorcaro ampliaram a divisão interna no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a condução do caso Banco Master.

Relator do inquérito, André Mendonça deu 72 horas para que a Polícia Federal reunisse todas as menções a Moraes, ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.

Na segunda-feira (31), Mendonça encaminhou o relatório à Procuradoria-Geral da República (PGR) e deu cinco dias úteis para que o órgão se manifestasse sobre o conteúdo, segundo o UOL.

Na terça-feira (1º), Mendonça também derrubou o sigilo do relatório da PF que reúne as mensagens entre Vorcaro e Moraes.

Mensagens de Vorcaro

Em uma das anotações, Vorcaro pediu que o destinatário tentasse sensibilizar Andrei para adiar uma operação policial. A PF identificou Moraes como destinatário da mensagem.

"Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível", escreveu Vorcaro em 16 de novembro de 2025, um dia antes de ser preso.

As comunicações eram feitas por meio de capturas de tela do bloco de notas, enviadas pelo WhatsApp com visualização única. As respostas atribuídas a Moraes não foram recuperadas.

Além das mensagens,metadados de um contrato de R$ 131 milhões entre o Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes apontam o perfil "Ministro Alexandre de Moraes" como responsável pelas últimas alterações, segundo o Estadão. O escritório confirmou o acesso e negou irregularidades.

Discussão interna

O pedido de Mendonça abriu uma discussão no STF sobre os procedimentos necessários quando uma investigação sob responsabilidade de um ministro produz informações envolvendo outro integrante da Corte.

Ministros ouvidos pelo UOL avaliam que Mendonça já estaria, na prática, apurando a conduta de Moraes. Para esse grupo, uma investigação formal contra um ministro do Supremo dependeria de autorização do plenário.

A avaliação no gabinete de Mendonça é diferente. Segundo o g1, seus auxiliares sustentam que a atuação da PF precisa ser examinada e que a investigação pode alcançar ministros caso surjam elementos que justifiquem esse avanço.

Reação à relatoria

Mendonça avalia incluir formalmente Moraes no inquérito. Até o momento, o relator pediu a reunião das informações e a manifestação da PGR antes de decidir sobre os próximos passos.

No grupo ligado a Moraes, Gonet e Andrei, há integrantes que defendem questionar Mendonça por suposto desvio de finalidade e abuso de autoridade. Alguns avaliam até uma tentativa de retirá-lo da relatoria do caso.

Ministros também querem que o presidente do STF, Edson Fachin, submeta o pedido ao plenário. Moraes não se manifestou oficialmente sobre as novas informações, mas disse a aliados estar tranquilo e preparado para responder às acusações, segundo o UOL.

Grupos no STF

O caso Master já havia provocado divergências entre os ministros antes das novas referências a Moraes. As discussões envolvem a condução da investigação, a resposta institucional do STF e a proposta de criação de um código de conduta.

Em abril, a Folha de S.Paulo informou que Moraes, Flávio Dino, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin haviam se articulado contra iniciativas apresentadas por Fachin para enfrentar a crise de imagem do tribunal.

Entre os pontos de divergência estavam o código de conduta e a cobrança por uma defesa pública mais enfática dos ministros. Fachin, Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia apareciam em outro grupo, enquanto Kassio Nunes Marques oscilava entre os dois núcleos.

As composições variam conforme o processo. No caso Master, a divisão também apareceu nos debates sobre prisões, delações premiadas e os métodos adotados na investigação.

Em junho, a Folha apontou Gilmar e Mendonça como integrantes de grupos diferentes. O decano criticou a forma como uma possível delação de Vorcaro estava sendo tratada, enquanto pessoas próximas ao relator viram uma tentativa de descredibilizar a investigação.

Outros processos

As divergências também aparecem em investigações politicamente sensíveis. Mendonça e Dino têm sob sua responsabilidade inquéritos relacionados ao filme "Dark Horse", sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, e a suspeitas envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.

Os dois ministros podem adotar ritmos e métodos diferentes em casos semelhantes. Segundo a Folha, Dino e Mendonça ocupam posições opostas nessa divisão, embora mantenham uma relação pessoal considerada cordial.

Mendonça também defendeu a "irrestrita observância" ao sigilo da fonte jornalística ao determinar a apuração de vazamentos no caso Lulinha. A declaração foi interpretada por ministros como uma resposta a Dino e Moraes, que haviam afirmado que essa proteção não poderia servir de escudo para a prática de crimes.

A possível delação de Vorcaro é outro ponto de divergência. Segundo o g1, pessoas próximas a Mendonça demonstram desconfiança sobre a resistência a negociações anteriores e avaliam que uma colaboração mais ampla poderia alcançar outras relações do ex-banqueiro.

Precedente Toffoli

Dias Toffoli foi o primeiro relator do caso Master no Supremo. Ele deixou a relatoria do processo em fevereiro, depois que a PF informou a Fachin que havia referências ao ministro em mensagens encontradas no celular de Vorcaro.

O STF afirmou na ocasião que não existiam motivos para declarar a suspeição ou o impedimento de Toffoli. A Corte também registrou que a saída ocorreu a pedido do próprio ministro.

Após a decisão,o processo foi redistribuído eletronicamente para Mendonça. O relator passou a comandar os próximos passos da investigação.