Israel e Finlândia assinaram discretamente um memorando de entendimento sobre cooperação em defesa, válido por dez anos até 2034, conforme revelou a emissora finlandesa Yle no sábado (29).
O acordo foi aprovado pelo ministro da Defesa finlandês, Antti Häkkänen, no início de 2024, quando as operações israelenses na Faixa de Gaza já havia causado dezenas de milhares de mortes civis, sem que o Ministério da Defesa fizesse anúncio público sobre o tema.
O memorando substitui versão anterior de 2013 e visa garantir colaboração em pesquisa, desenvolvimento e aquisição de produtos bélicos entre ambos os países. A vigência de uma década é, porém, um diferencial de acordos anteriores, renovados em períodos de cinco anos.
O acordo prevê grupo conjunto de coordenação que se reúne ao menos anualmente. A Finlândia é representada por Olli Ruutu, diretor da seção de políticas de recursos do Ministério da Defesa. Em maio, um representante do Ministério da Defesa israelense declarou ao Jerusalem Post que "a Finlândia é a porta de entrada de Israel para a OTAN e os mercados europeus".
A cooperação inclui 23 projetos em andamento envolvendo o exército finlandês e empresas israelenses. Como destaque, está a aquisição finlandesa do sistema de defesa antiaérea Estilingue de Davi, avaliado em mais de 300 milhões de euros, aprovado pelo governo de Sanna Marin pouco antes do início da escalada do extermínio em Gaza em 2023.
A Finlândia se tornou, assim, o primeiro cliente estrangeiro do sistema, que entrará em operação em 2027.
Outro projeto implicaria a fabricante finlandesa Patria, que desenvolve estreita colaboração com empresas israelenses, integrando o sistema de proteção Trophy da estatal Rafael Advanced Defence Systems e mísseis anticarro Spike em seus veículos blindados AMV XP 8x8.
Dedos apontados
Dentre a oposição finlandesa, a líder do Partido Verde, Sofia Virta, apontou que a política do governo é uma "vergonha histórica", acusando o executivo de aprofundar laços com Israel enquanto rejeita demandas por pressão sobre Gaza. A Aliança de Esquerda anunciou o envio de um questionamento oficial sobre quem tinha conhecimento do acordo e os planos do governo sobre a questão.
O pesquisador Kari Paasonen, do Centro de Pesquisa sobre Paz e Conflito de Tampere, considera problemático que não tenha sido conduzida uma avaliação de política externa sobre a renovação, ao contrário do ocorrido em 2019.
Ele adverte que "a Finlândia está praticamente dependente da indústria bélica israelense" devido à necessidade de manutenção, peças e atualizações dos sistemas adquiridos.
Häkkänen defendeu o acordo como prática padrão ao Yle, afirmando que a Finlândia desfruta de documentos de cooperação com cerca de 40 países e que o memorando não representa "mudança dramática de política".
O ministro se recusou a especular sobre eventual cancelamento caso a Corte Internacional de Justiça conclua pela prática de genocídio por Israel no julgamento do caso apresentado pela África do Sul em dezembro de 2023.