Segurança alimentar piora para quase metade das famílias em Gaza — agência da ONU

Três em cada quatro lares tiveram dificuldades para comprar até mesmo as necessidades mais básicas na últimas duas semanas. Problemas não se resumem à falta de dinheiro: destruição da infraestrutura e obstáculos impostos por Israel complicam a logística.

Embora os preços dos alimentos nos mercados da Faixa de Gaza não tenha crescido significantemente, 45% das famílias dizem ser mais difícil comprar comida que no mês anterior, segundo o relatório de agosto Market Monitor do Programa Mundial de Alimentos (WFP), agência da ONU.

O relatório mostra que os padrões de consumo de alimentos em julho se mantiveram no mesmo patamar de junho, ainda bem abaixo dos níveis anteriores ao conflito.A dieta continua pobre em proteína, frutas e vegetais, embora em melhor situação do que no período anterior ao cessar-fogo de outubro de 2025.

Apenas 15% das famílias entrevistadas relataram melhora na facilidade em encontrar e comprar alimentos. Outros 40% disseram que a situação não mudou, enquanto 45% apontaram piora.

Três em cada quatro lares reportaram ter pessoalmente passado por dificuldades nas últimas semanas, especialmente dificuldades financeiras.

Mais comida, mas pouca diversidade

Em julho, 5.677 caminhões humanitários e comerciais entraram em Gaza — 3.511 comerciais e 2.166 humanitários. No entanto, a entrada de produtos frescos continua limitada.

O calor, exacerbado pela falta de refrigeração, amplia os custos e as perdas, tornando o comércio desses itens pouco rentável, o que contribui para a baixa diversidade alimentar. Os mercados sofrem de todo tipo de problemas estruturais: interrupções na cadeia de suprimentos, altos custos para repor estoques, preços voláteis e até mesmo escassez de dinheiro em espécie. Tudo isso dificulta a operação dos comerciantes e o acesso das famílias aos produtos essenciais.

Quando não falta comida, falta gás de cozinha

Os problemas não se resumem à comida em si. O gás de cozinha continua sendo vendido a 74 shekels israelenses (1 shekel = R$ 1,74 na cotação de hoje) pelo cilindro de 8 kg por fornecedores oficiais, mas em quantidades muito restritas.

No mercado paralelo, os preços em julho variaram entre 90 e 110 shekels por quilo. Na primeira quinzena de agosto, o valor no mercado informal caiu para 65-75 shekels. Mesmo com a redução, menos de 10% das famílias conseguem comprar o produto.

O relatório da WFP reforça que, apesar do aumento no número de caminhões entrando em Gaza, a recuperação da segurança alimentar permanece frágil. Sem mais liquidez nas mãos das famílias e sem maior oferta de alimentos frescos e combustível, os avanços continuam limitados.

Israel restringe ajuda humanitária

O Observatório Euro-Med para os Direitos Humanos relatou, em 9 de agosto de 2026, que "Israel está implementando uma política abrangente que interrompe toda a cadeia de suprimentos, desde a entrada de bens e ajuda humanitária pelas passagens de fronteira até que cheguem à população".

O relatório também observa mesmo quando o ingresso é autorizado, não há garantia de que aqueles que têm permissão para entrar cheguem a quem precisa, "devido à destruição ou deterioração da infraestrutura de transporte, armazenamento e distribuição". Os atrasos nas entregas causam o desperdício de alimentos congelados, medicamentos e outros suprimentos vitais.

O Euro-Med destaca que Israel, "como potência ocupante, tem a obrigação, nos termos dos Artigos 55 e 59 da Quarta Convenção de Genebra, de garantir que a população receba alimentos e suprimentos médicos quando os recursos locais forem insuficientes".

Do ponto de vista logístico, muitas das doenças que assolam Gaza poderiam ser erradicadas se Israel cumprisse o direito internacional e permitisse a entrada de alimentos, água e ajuda médica suficientes no país.