Embora o sol nasça para todos, a crise climática faz com que o ditado perca força diante do impacto desigual que as altas temperaturas causam entre a população com menos recursos socioeconômicos e maior vulnerabilidade.
Um artigo publicado por especialistas em medicina da Universidade de Toronto, Canadá, na revista científica PLOS Global Public Health, argumenta que as mudanças climáticas provocam um impacto significativo na saúde humana e na produtividade no trabalho.
De acordo com a publicação, "as mudanças ambientais, incluindo temperaturas extremas e desastres naturais, contribuem para pressões psicológicas e limitações físicas que afetam a qualidade de vida e o bem-estar".
O impacto não é porém uniforme. Populações vulneráveis sofrerão ainda mais com o impacto do calor recorde neste ano, exacerbado pelo fenômeno climático El Niño.
Calor e morte
Segundo o livro "Calor Extremo, Saúde em Risco", da organização espanhola Observatório DKV para a Saúde e o Meio Ambiente, entreos efeitos da onda de calor estão aumento da mortalidade e morbidade por causas cardiovasculares, respiratórias e renais, deterioração da saúde mental, complicações durante a gravidez e a disseminação de doenças ligadas ao clima tropical para áreas não habituadas a elas.
De acordo com os dados do sistema de monitoramento diário da mortalidade (MoMo) na Espanha, em 2026, 5.444 pessoas morreram por causas relacionadas à temperatura, a vasta maioria deles no verão. A população mais vulnerável são os idosos, que sofrem alterações em sua capacidade de termorregulação, que é agravada por condições como doenças cardiovasculares, respiratórias, renais e metabólicas.
Mapa de vulnerabilidades
O observatório DKV também aponta que as mulheres morrem mais do que os homens durante as ondas de calor. Segundo a organização, no verão de 2022 na Europa, que também foi particularmente intenso, essa diferença foi de 56%.
Entre os motivos estão as diferenças fisiológicas na termorregulação, o "maior isolamento social, e menor acesso a espaços refrigerados".
De acordo com os dados fornecidos na publicação, as mulheres com mais de 65 anos "são o subgrupo com pior prognóstico durante as ondas de calor."
Outro fator importante são as condições de trabalho. Atividades ao ar livre, como construção e mineração, também são as mais afetadas pela insolação. Na Espanha, os trabalhadores da agropecuária e da hotelaria estão sob um risco mais alto de sofrer acidentes de trabalho por conta do calor. Trabalhadores migrantes sazonais, já normalmente mais sujeitos a condições precárias de trabalho, se tornam ainda mais vulneráveis com as temperaturas extremas.
Desigualdade social
A pobreza também afeta a forma como o calor atinge as pessoas. Condições de habitação inadequada, a falta de acesso à água potável, a ausência de espaços verdes e o custo de aparelhos como ar-condicionado são exemplos de fatores que expõem os mais pobres a um risco maior.
A densidade populacional nas áreas urbanas tambem amplifica os efeitos da onda de calor: grandes extensões de concreto com poucas áreas verdes têm temperaturas pelo menos 4°C mais altas.
"O calor extremo não é apenas uma crise climática: é também um raio-X da desigualdade. Quem tem menos, mora onde faz mais calor, trabalha onde está mais exposto e tem menos recursos para se proteger", conclui a publicação do Observatório DKV.