
Soberania atômica: entenda o Centro Industrial Nuclear de Aramar, em São Paulo

O Centro Industrial Nuclear de Aramar (CINA), em Iperó (SP), é um dos principais polos brasileiros de desenvolvimento de tecnologia nuclear.
O complexo reúne instalações da Marinha dedicadas ao domínio do ciclo do combustível nuclear, ao desenvolvimento de materiais e à preparação do sistema de propulsão do futuro submarino brasileiro com propulsão nuclear.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou Aramar nesta quarta-feira (19) para acompanhar o andamento do Programa Nuclear da Marinha (PNM), que chega à etapa de montagem do reator.

O que é o Centro de Aramar?
Criado como parte dos esforços brasileiros para dominar tecnologias nucleares estratégicas, Aramar reúne laboratórios, unidades industriais e estruturas de treinamento.
O objetivo é permitir que o país desenvolva internamente etapas consideradas críticas da tecnologia nuclear, reduzindo dependências externas e formando profissionais especializados.
O complexo também tem importância para aplicações civis da tecnologia nuclear, além do uso relacionado à defesa.
O submarino nuclear
O principal projeto é o desenvolvimento da planta nuclear que dará propulsão ao futuro Submarino Nuclear Convencionalmente Armado (SNCA).
Para isso, a Marinha construiu o Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LABGENE). Ele funciona como uma espécie de submarino em terra: reproduz, em escala real, a planta de propulsão que deverá ser instalada posteriormente na embarcação.
Isso permite testar o reator e seus sistemas em ambiente controlado antes da instalação no submarino.
Quando estiver em plena operação, o LABGENE terá 48 megawatts de potência térmica.
Estruturas do complexo
O complexo reúne diferentes estruturas, cada uma responsável por uma etapa da cadeia tecnológica:
- Laboratório de Enriquecimento Isotópico (LEI): desenvolve a tecnologia de enriquecimento de urânio por ultracentrifugação.
- Usina Piloto de Produção de Hexafluoreto de Urânio (USEXA): transforma o concentrado de urânio, o chamado "yellow cake", em UF6, gás utilizado no processo de enriquecimento.
- Laboratório de Materiais Nucleares (LABMAT): pesquisa combustíveis, cerâmicas e ligas utilizadas em sistemas nucleares.
- LABGENE: testa o reator e os sistemas que formarão a planta de propulsão do submarino.
O domínio dessas etapas é considerado estratégico porque permite ao Brasil controlar uma grande parcela da cadeia necessária para produzir e operar seus próprios sistemas nucleares.
Hexafluoreto de urânio
O hexafluoreto de urânio (UF6) é uma forma química do urânio utilizada como matéria-prima nas ultracentrífugas responsáveis pelo enriquecimento isotópico.
A USEXA trabalha justamente nessa etapa. A produção em escala industrial é apontada pelo governo como uma forma de diminuir a necessidade de importação de um insumo considerado crítico para o ciclo do combustível nuclear.
Militar e civil
O programa é considerado dual, porque os conhecimentos desenvolvidos para a área de defesa também podem ter aplicações civis.
Segundo o governo, o domínio da tecnologia de reatores poderá futuramente contribuir para o desenvolvimento de pequenas centrais nucleares. A cadeia de pesquisa também pode gerar aplicações em áreas como medicina e agricultura.
A Finep apoia projetos associados ao programa. Um deles é o Atomic, que utiliza modelagem computacional para analisar transientes e possíveis acidentes em sistemas nucleares.
No LABMAT, a Finep também investe R$ 58 milhões na instalação de uma linha de produção de combustíveis nucleares para reatores de pequeno porte.
Certificação internacional
O Centro de Instrução e Adestramento Nuclear de Aramar (CIANA) prepara profissionais civis e militares para trabalhar em plantas nucleares, incluindo as equipes técnicas do LABGENE.
Já o Laboratório Radioecológico (LARE) acompanha os níveis de radiação no complexo e nas áreas de entorno por meio de um programa de monitoração ambiental.
O laboratório segue critérios da norma ISO 17025 e mantém cooperação técnica com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

