O Escritório Nacional Anticorrupção da Ucrânia (NABU) e a Procuradoria Especial Anticorrupção (SAP) divulgaram, nesta quarta-feira (19), novas gravações que ampliam ainda mais a dimensão do escândalo de corrupção na cúpula do regime ucraniano.
As últimas investigações, batizadas de Operação Forrest Gump, desmantelaram uma "organização criminosa" liderada por um deputado em exercício e um ex-parlamentar, com a participação de altos funcionários do gabinete de Vladimir Zelensky.
Os áudios divulgados fazem parte das provas reunidas durante a investigação. A seguir, apresentamos as principais revelações.
R$ 17,36 milhões em dinheiro vivo
Um dos episódios investigados envolve cerca de 150 milhões de grívnias em dinheiro vivo (aproximadamente R$ 17,36 milhões), que teriam sido introduzidos no sistema financeiro legal por meio de uma série de contas pertencentes a empresas de fachada.
Segundo a investigação, o dinheiro foi usado para pagar a fiança de um dos integrantes da organização investigada no chamado caso Midas, o ex-ministro da Energia German Galushchenko. Nas gravações, várias pessoas discutem como inserir a quantia no sistema financeiro sem levantar suspeitas dos órgãos de controle.
Em uma das conversas, os envolvidos cogitam dividir o valor entre várias pessoas para efetuar os pagamentos. É possível ouvir a vice-chefe do gabinete de Zelensky, Irina Mudraya, falando em russo com um ex-deputado, aparentemente Maksim Mikitas, segundo a imprensa local.
O ex-deputado afirma que "trouxeram 200 milhões para German" e que estão procurando uma forma de "pagá-los". Ele se oferece para contribuir pessoalmente com 50 milhões de grívnias, afirmando saber como fazê-lo. Os interlocutores também consideraram recorrer à sogra de alguém.
"Temos o caso do soldado Ryan, certo? Mas, p#rra, só um idiota poderia jogar nas costas dos próprios filhos o desvio dos recursos destinados à educação deles. Vocês sabiam que ele é o chefe? Sim. Já estão prontos para confessar tudo, não é? Confissão voluntária, como se costuma dizer, certo? Sim. E eu, p#rra, bem, quatro sacos [de dinheiro]. P#rra, meu Deus. Se fizermos isso, p#rra, para que diabos, vocês mesmos podem ir, p#rra, ao gabinete do presidente, sozinhos. Acreditem, eu vejo isso chegando", ouve-se nas gravações, em referência a Galushchenko e aos gastos com a educação de seu filho no exclusivo colégio suíço Beau Soleil.
O custo anual dos estudos, estimado entre US$ 180 mil e US$ 200 mil (aproximadamente R$ 931 mil e R$ 1,03 milhão), já havia sido alvo de investigação. Galushchenko declarou ao tribunal que os estudos eram pagos por conhecidos ricos e padrinhos.
"Vão arrancar nossas cabeças"
Parte da fiança que os envolvidos pretendiam pagar por Galushchenko — 50 milhões de grívnias (aproximadamente R$ 5,79 milhões) — foi transportada em dinheiro vivo, dentro de sacos, até o escritório de um ex-deputado. No entanto, eles precisavam contar o dinheiro e separar 15 milhões desse montante para outras operações.
Os participantes demonstraram preocupação ao perceberem integrantes da inteligência militar ucraniana (GUR) no estacionamento: "Os guardas do GUR estão ali, p#rra, vão arrancar nossas cabeças". No entanto, uma pessoa identificada nas gravações como "um empresário conhecido" garantiu que não havia motivo para preocupação e que estava tudo "bem".
Em outro momento, Mudraya entrou em contato com o presidente do conselho de supervisão do Sense Bank para perguntar se o dinheiro havia chegado e pediu que ele "não decepcionasse", porque "lá já estão ficando impacientes".
As gravações também mencionam um mecanismo pelo qual o sistema de controle financeiro poderia ser temporariamente desativado, o que permitiria abrir uma "janela" para realizar o pagamento sem passar por determinados controles manuais.
"Estaremos todos ferrados"
A investigação também aponta para possíveis tentativas de influenciar as próprias instituições anticorrupção. Mudraya chegou a discutir a possibilidade de colocar pessoas alinhadas no conselho público do NABU e uma eventual substituição do chefe da Procuradoria Especial Anticorrupção, Aleksandr Klimenko.
A funcionária classificou Klimenko como uma figura "sem princípios" e manifestou preocupação com as consequências de uma eventual renovação de seu mandato. "Estaremos todos ferrados", concluiu, ao mencionar a possibilidade de sua recondução por mais sete anos. "Ele não é dos nossos", afirmou, alertando que poderia chegar até eles "assim como chegou a Andrey Yermak e todos os outros".
Para saber mais sobre Yermak, braço direito de Zelensky, leia nosso artigo.
Mudraya também lamentou a falta de uma reserva de candidatos no Gabinete de Zelensky e comparou a situação à estratégia atribuída aos "americanos" de incorporar ex-funcionários do NABU a outros órgãos estatais da Ucrânia — alfândega, Escritório de Segurança Econômica e Agência de Recuperação e Gestão de Ativos — em meio a uma disputa pelo controle das nomeações.
A "carteira" de Zelensky mantém contato
Segundo as gravações do NABU, o empresário Timur Mindich, conhecido como a "carteira" de Zelensky e um dos principais envolvidos no caso, continuou mantendo contato com representantes do Gabinete do líder do regime de Kiev mesmo depois de fugir para Israel para escapar da Justiça.
Em uma conversa de segunda-feira (8), Mudraya menciona uma ligação de "nosso refugiado israelense, Timur" sobre o Sense Bank, que ele teria pedido para "tomar". Mindich afirmou que "há fluxos de dinheiro lá, muito dinheiro" e dirigiu seu pedido a um alto funcionário do Gabinete de Zelensky.
"A corrupção precisa ser sistematizada"
No fim dos novos áudios, uma voz feminina não identificada — que a imprensa ucraniana atribui a Mudraya — cita uma declaração polêmica sobre a corrupção.
"Ele diz: 'A corrupção precisa ser sistematizada e controlada, não se deve combatê-la'."
Consequências
O NABU informou que todos os integrantes da organização criminosa foram indiciados por lavagem de dinheiro. As acusações seguem em tramitação judicial, e a responsabilidade penal dos envolvidos deverá ser determinada nos respectivos processos.
No âmbito da operação anticorrupção, foram realizadas buscas no Sense Bank, enquanto o deputado Vadim Stolar, ex-integrante do partido Plataforma de Oposição — Pela Vida, atualmente proibido na Ucrânia, confirmou nas redes sociais que o NABU também realizou buscas em sua residência.
Como consequência do escândalo, Zelensky demitiu Mudraya do cargo de vice-chefe de seu Gabinete, enquanto a Rada Suprema, o Parlamento ucraniano, convocou o presidente do Banco Nacional da Ucrânia, Andrey Pyshny, para prestar esclarecimentos sobre a menção ao Sense Bank nas novas gravações.