Entrega de motores aeronáuticos de fabricação 100% nacional coloca Rússia na elite mundial do setor

As primeiras unidades do PD-8 já foram entregues ao cliente para instalação em aeronaves Superjet 100 (SJ-100). Apenas quatro países no mundo todo tem tecnologia para produzir motores aeronáuticos de forma completamente independente, e a Rússia é um deles.

A Rússia alcançou um importante marco tecnológico com a entrega dos primeiros motores aeronáuticos PD-8 de produção em série, inteiramente projetados e fabricados no país como substitutos de importações, segundo reportagem do jornal russo Vzglyad nesta quinta-feira (13). O projeto consolida a posição da Rússia como um dos poucos países do mundo capazes de desenvolver motores aeronáuticos de forma independente.

Viktor Konyukhov, chefe da Saturn, parte da United Engine Corporation (ODK), anunciou que os dois primeiros motores PD-8 de produção em série já foram entregues ao cliente para instalação em aeronaves Superjet 100 (SJ-100). "O PD-8 é agora um motor totalmente russo, que foi criado utilizando materiais russos e tecnologias completamente novas", afirmou.

Nesse contexto, Konyukhov enfatizou a complexidade do processo de desenvolvimento.

"Tivemos que desenvolver e dominar novos materiais durante a fase de projeto, em colaboração com institutos e empresas metalúrgicas", explicou.

A montagem dos primeiros motores produzidos em série começou em junho, informou o Centro Aeroespacial Russo (ODK).

"O PD-8 é um motor russo de substituição de importações que recebeu certificação de tipo e foi criado utilizando materiais russos e tecnologias totalmente novas."

Substituindo o motor franco-russo

O motor PD-8 foi criado para substituir o motor franco-russo SaM146, que equipava a primeira geração do Superjet.

"A importância da entrega de dois motores reside na transição do desenvolvimento experimental para a produção. Em outras palavras, o PD-8 agora deve entrar no ciclo de produção real do SJ-100 e não permanecer apenas como um protótipo experimental certificado", observa Dmitri Skobelkin, especialista sênior da Finam Management.

Roman Gusarov, diretor da Avia.ru, enfatiza a natureza estratégica da conquista. "Este é o primeiro motor instalado na primeira aeronave de produção. Isso significa que o novo Superjet  tem todas as chances de se tornar realidade. Porque você pode construir todos os aviões que quiser, mas sem um motor eles não valem nada", afirma, enfatizando que este é um momento crucial.

"Sem motores, não teremos uma indústria aeronáutica, considerando o atual cenário de política externa", acrescentou.

Um seleto grupo na aviação global

O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou anteriormente que a Rússia é um dos únicos quatro países capazes de garantir todo o ciclo de produção de motores de aeronaves. "Este é um dos principais indicadores de soberania técnica, científica e industrial. Poucos países possuem capacidades tão singulares. A Rússia está entre eles", observou o presidente.

De acordo com Gusarov, esse seleto grupo é composto pelo Reino Unido, França, Estados Unidos e Rússia. "Apesar de todas as dificuldades das décadas de 1990 e 2000, continuamos líderes mundiais. Mantivemos nossa posição".

"O motor de aeronave é uma supertecnologia, uma das mais complexas da história da humanidade. Sem uma tradição científica e de engenharia centenária, não estaríamos entre os quatro primeiros", explica o especialista.

O analista ainda citou a China como exemplo, que, apesar de seus avanços na exploração espacial e em armas nucleares, não conseguiu dominar a tecnologia de motores de aeronaves. "A China voa para o espaço, tem a bomba atômica, mas não conseguiu dominar o motor de aeronave", destaca.

Planos de remotorização

Os novos motores PD-8 não serão instalados apenas na segunda geração do Superjet. O Ministério da Indústria e Comércio está desenvolvendo um plano financeiro para substituir o motor francês nos modelos anteriores desta aeronave. Potencialmente, entre 50 e 100 aeronaves Superjet 100 precisariam dessa remotorização.

"Existem muitas aeronaves antigas, com 15 anos de uso. Para elas, realizar uma substituição cara de motor não faz sentido. Será mais rentável operá-las por mais 3 a 5 anos e depois aposentá-las, substituindo-as por novas", explica Gusarov.

No entanto, segundo o especialista, há aeronaves que ainda têm metade de sua vida útil pela frente. "É uma pena descartá-las. Se a remotorização for rentável, então faz sentido investir nisso", acredita ele.

O principal obstáculo são as altas taxas de juros, que impedem as companhias aéreas de arcarem com essas despesas, mesmo para preservar suas frotas.

"Neste momento, o Estado deve intervir, oferecendo um programa de apoio governamental, por exemplo, financiamento preferencial para a substituição de motores dos Superjets. As companhias aéreas precisam de empréstimos com juros preferenciais de 1,5% ou 2% ao ano, isso seria viável para elas", destaca Gusarov.

Skobelkin alerta que a remotorização em massa de toda a frota de SSJ-100 não se justifica nem econômica nem tecnicamente. "A substituição em massa de motores não é uma simples operação de 'remover um motor e colocar outro'. O PD-8 difere em massa, dimensões, sistemas de controle e interface com a aeronave.

Entre as operações necessárias estão a modernização da estrutura da fuselagem, dos pilones, das naceles dos motores, dos sistemas de controle, dos sistemas elétrico, de combustível e de supressão de incêndio, bem como novos testes e certificações, além de trabalhos de integração específicos", conclui o especialista.