Cartéis mexicanos estão 'à caça' de 'influenciadores'

Negligência estatal, intimidação e relacionamentos amorosos com criminosos estão entre as condições que facilitam a prática desse tipo de crime.

Desde 2024, pelo menos 19 influenciadores foram assassinados por cartéis mexicanos em oito estados do país. Embora a atenção da mídia tenha se concentrado no Cartel de Sinaloa e nas supostas ligações das vítimas com o crime organizado, especialistas acreditam que a situação é mais complexa e resulta de uma combinação de fatores.

David Saucedo, especialista em segurança, disse ao jornal El Universal que esses assassinatos são resultado, entre outras coisas, da negligência das autoridades, do poder dos cartéis de drogas em moldar a opinião pública e do estabelecimento de um clima geral de terror e intimidação direcionado àqueles que denunciam assuntos considerados "incômodos".

"Até agora, não existem protocolos. Parece-me que o Estado, o Governo, todos os três níveis de governo têm sido negligentes em fornecer proteção aos influenciadores. Eles não são tratados como comunicadores e, consequentemente, não possuem medidas de proteção", afirmou o especialista, referindo-se à responsabilidade que as autoridades têm em salvaguardar a vida desses indivíduos.

Além da Negligência do Estado

Em relação à capacidade de moldar a opinião pública, Saucedo destacou que "às vezes, esses influenciadores têm audiências maiores do que os veículos de mídia tradicionais" e, por essa razão, "grupos criminosos têm interesse em estabelecer sua presença, ditando linhas editoriais em seus territórios e usam influenciadores para disseminar histórias que lhes interessam ou para censurar notícias que os afetam".

Saucedo também ressaltou a possibilidade real de que alguns deles possam ter emprestado seu nome e influência para lavar dinheiro ilícito para os cartéis – como, segundo as autoridades, aconteceu em Sinaloa – mas também para outras questões, como relacionamentos amorosos com membros de estruturas criminosas.

Segundo a investigação, esse foi o motivo do assassinato de Valeria Márquez, que foi baleada em seu salão de beleza em maio de 2025 durante uma transmissão ao vivo. Ramón Ángel Álvarez Ayala, vulgo 'El R1', líder do Cartel Jalisco Nova Geração, é acusado de ter ordenado o crime a mando de seu filho Francisco, com quem a influenciadora tinha um relacionamento.

Vítimas Não Tão Óbvias

Saucedo alertou que criadores de conteúdo que expõem questões consideradas "sensíveis" denunciam crimes ou criticam autoridades locais também podem se tornar alvos dos cartéis.

Para ilustrar seu ponto, ele citou os casos de Alex Serna, um YouTuber com conteúdo focado em questões ambientais que foi assassinado em julho passado após registrar queixas; Juan Diego Maldonado Grijalva, 'El Chabelo', que criticava de forma bem-humorada o prefeito de sua cidade; e Sergio VG, que fazia transmissões ao vivo sobre temas paranormais e de terror.

Em todo caso, o especialista é categórico ao afirmar que aqueles que atacam personalidades da internet devem ser severamente punidos. "Deveria haver uma punição mais rigorosa para quem ataca influenciadores, dado o papel que desempenham na sociedade", concluiu.