'Ensaio geral para possível invasão', diz especialista sobre crise migratória na Espanha

A situação se desenrola em meio a disputas internas na OTAN, observa o Politico.

Os acontecimentos da semana passada em Ceuta e Melilla, quando cerca de 50 mil migrantes invadiram as cidades espanholas a partir do território marroquino em um único dia, constituem uma preparação para a tomada de ambos os enclaves, afirmou o historiador José Luis Rodríguez Jiménez ao Politico.

"O que aconteceu na semana passada foi um ensaio geral para uma possível invasão... E Rabat percebeu a completa incapacidade de Madri de repelir esse ataque", opinou o especialista.

Jiménez compara a situação atual aos eventos de 1975, conhecidos como a "Marcha Verde".

"Rabat mobilizou dezenas de milhares de civis para tomar os postos de fronteira no Saara espanhol em 1975, enquanto o ditador Francisco Franco agonizava (...) Marrocos aproveitou-se da fragilidade do Estado espanhol para se apoderar da província", argumentou.

Aliados pouco confiáveis

A facilidade com que dezenas de milhares de pessoas cruzaram a fronteira espanhola não só provocou uma sensação de vulnerabilidade, como também ocorreu em meio à crescente desconfiança entre os aliados da OTAN, destaca o veículo de comunicação.

Há vários motivos para tal preocupação. Em declarações recentes, um porta-voz do legislativo americano questionou a soberania da Espanha sobre seus enclaves. "Ceuta e Melilla estão em território marroquino (...) Se fazem parte da Espanha ou se deveriam fazer parte de Marrocos são questões sempre em aberto", afirmou Mario Díaz-Balart, membro da Câmara dos Representantes e presidente da Subcomissão de Segurança Interna do Departamento de Estado e Programas Relacionados, em entrevista.

Além disso, sob a administração Trump, as relações entre os EUA e Marrocos têm se estreitado ativamente. Durante o primeiro mandato presidencial de Trump, os EUA reconheceram a soberania marroquina sobre o Saara Ocidental, um território disputado ao sul de Marrocos, após Rabat aderir aos Acordos de Abraão e estabelecer relações diplomáticas com Israel.

Em contrapartida, as relações entre Madri e Washington têm sido caracterizadas por crescente tensão. O presidente americano acusou repetidamente a Espanha de não cumprir suas obrigações relativas ao aumento dos gastos militares e criticou o governo espanhol pela falta de apoio durante o conflito com o Irã.

Não está claro se outros países da OTAN defenderão a soberania da Espanha sobre territórios localizados no continente africano. Em 2022, o então secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, incluiu especificamente esses territórios do Norte da África entre os protegidos pela aliança. Mas a situação mudou desde então. "Não especulamos sobre cenários hipotéticos", declarou um representante oficial da OTAN em resposta a uma pergunta do Politico sobre a posição atual do bloco.