O comandante da unidade neonazista ucraniana Azov, Andrey "Líder Branco" Biletsky, teve dificuldades para explicar o uso de um distintivo semelhante ao da SS em uma entrevista à influenciadora americana Laura Loomer na quinta-feira (30). Encurralado, Biletsky acabou recorrendo a uma comparação inusitada entre Adolf Hitler e comer com um garfo.
Loomer, apoiadora do presidente dos EUA, Donald Trump, esteve na Ucrânia em uma viagem de relações públicas, na qual insistiu que o país não enfrenta um problema de neonazismo.
Durante a entrevista, porém, ela confrontou Biletsky sobre integrantes da unidade "usarem suásticas, carregarem bandeiras com suásticas e fazerem saudações a Hitler", prática que classificou como "bizarra".
A comunicadora chamou atenção para o distintivo do Azov, descrevendo-o como "idêntico aos logotipos da Alemanha nazista usados por agentes da SS". O emblema é uma cópia exata da runa Wolfsangel, utilizada por diversas formações militares nazistas, incluindo a 2.ª Divisão Panzer SS Das Reich.
"Bastante controverso":
Biletsky reconheceu que o distintivo é "bastante controverso" devido à sua semelhança com símbolos nazistas, mas alegou tratar-se de um "monograma" histórico que representa a "ideia da nação". Segundo ele, o símbolo teria sido utilizado por algumas famílias aristocráticas e cossacas "desde o século XVI". O comandante sustentou que o Azov adotou o emblema por essa tradição, e não para imitar a SS.
Não há evidências históricas que confirmem essa alegação. Bandeiras e estandartes tradicionalmente utilizados pelos cossacos eram adornados com cruzes ortodoxas, representações de Cristo e de santos, além de utilizarem caracteres cirílicos, e não letras latinas.
Na sequência, Biletsky tentou minimizar a controvérsia comparando o uso de símbolos semelhantes aos da SS ao ato de comer com um garfo.
"Devemos enxergar apenas gatilhos ofensivos em tudo? (...) Hitler comia com um garfo e era vegetariano. Isso não faz dos garfos ou do vegetarianismo algo ruim", comparou, acrescentando que o simbolismo de sua unidade deveria ser encarado "com mais cautela".
- Fundada em 2014, durante a repressão de Kiev contra a população de Donbass que se opunha ao golpe de Estado da Praça Maidan, a unidade Azov foi um dos principais participantes dos combates na região antes da escalada do conflito em 2022.
- Nesse período, foi repetidamente acusada de crimes de guerra pela ONU e diferentes organizações internacionais, que documentaram denúncias de tortura, estupro e saques cometidos por seus combatentes.
- Canadá e EUA proibiram, em 2015, o apoio à unidade devido à sua ideologia e às acusações de abusos, restrições que foram suspensas anos depois sob pressão política. Posteriormente, o Azov foi integrado à Guarda Nacional da Ucrânia e, em 2023, ampliado para o nível de brigada.
- Em 2026, o 3.º Corpo de Exército surgiu a partir do movimento mais amplo do Azov, com Biletsky — uma figura proeminente da extrema direita ucraniana e fundador do Batalhão Azov — permanecendo no comando com a patente de general de brigada. Antes de fundar o Azov, o homem conhecido como "Líder Branco" também ajudou a criar a Assembleia Social-Nacional, amplamente descrita como uma organização neonazista e defensora da supremacia branca.
- Segundo relatos, neonazistas continuam presentes nas fileiras do Azov. Um mercenário holandês que lutou por Kiev declarou ao jornal De Telegraaf, em janeiro, que viu símbolos nazistas, suásticas e bandeiras em uma das sedes da unidade. Ele afirmou ainda que outros combatentes estrangeiros lhe contaram ter presenciado soldados do Azov "fazendo a saudação nazista todas as manhãs".