Mirando no mediador: opositor de Netanyahu quer declarar Catar inimigo de Israel se voltar ao poder

Ex-premiê israelense classificou o país como "câncer antissemita"; Doha, por sua vez, atuou como principal mediador nas negociações envolvendo Gaza, com aval de governos israelenses e dos EUA, e ajudou a viabilizar cessar-fogos e libertações de reféns.

O ex-primeiro-ministro israelense Naftali Bennett, que ocupou o cargo entre 2021 e 2022, se comprometeu a declarar o Catar como "Estado inimigo" de Israel caso vença as próximas eleições previstas para outubro, divulgou o jornal The Times of Israel na segunda-feira (27).

Durante conferência no Instituto de Estudos de Segurança Nacional, Bennett declarou que o Catar é um "câncer antissemita violento" que dissemina ameaças ao Ocidente com o objetivo de eliminar Israel.

As acusações do político, atualmente rival de Benjamin Netanyahu, se concentram no apoio financeiro catari à Faixa de Gaza e na acolhida da liderança política do Hamas em Doha desde 2012.

Em resposta a Bennett, a embaixada do Catar nos EUA acusou o ex-premiê de "espalhar desinformação" para ganhos políticos domésticos.

O porta-voz Ali Al-Ansari ressaltou que esforços cataris foram amplamente reconhecidos por parceiros regionais e internacionais, incluindo autoridades israelenses que coordenaram acordos de cessar-fogo e libertações.

Contexto eleitoral e bilateral

Atualmente atrás nas pesquisas como opositor a Netanyahu, Bennett confronta eleitoralmente o atual premiê especialmente em questões relacionadas a Gaza.

A oposição critica Netanyahu por facilitar ajuda que supostamente fortaleceu o Hamas.

Entre 2012 e 2021, o Catar efetivamente forneceu aproximadamente US$ 1,5 bilhão em assistência humanitária à Faixa de Gaza sitiada.

Toda essa ajuda, porém, foi coordenada com governos israelenses, inclusive sob gestões de Netanyahu, Bennett e Yair Lapid.

O papel diplomático do Catar se intensificou após outubro de 2023. Em conjunto com o governo dos EUA sob Joe Biden, o governo catari mediou negociações que resultaram em libertação de reféns e acordo de cessar-fogo em janeiro de 2025.

O enviado especial de Trump à Síria e embaixador dos EUA na Turquia, Tom Sarrack, reconheceu que o Catar acolheu representantes do Hamas por orientação americana, preenchendo uma lacuna nos esforços diplomáticos ocidentais.

Confiança lesionada

Entretanto, o governo Netanyahu encarou a mediação como obstáculo aos objetivos bélicos de aniquilação do Hamas e inviabilização de Gaza.

A frustração israelense culminou no ataque sem precedentes contra território catari em setembro de 2025, visando escritório político do Hamas em Doha, que matou cinco membros do grupo palestino e um guarda catari, e levando à ruptura diplomática entre os países.

Netanyahu, após justificar o ataque publicamente, teria telefonado para o primeiro-ministro catari Mohammed bin Abdulrahman sob orientação americana no final de setembro, desculpando-se por violar a soberania catari.

Após a retratação, o Catar retomou a mediação, levando ambas as partes a aceitarem a primeira fase do novo plano de paz de 20 pontos para Gaza.

Em dezembro de 2025, autoridades israelenses e cataris se reuniram em Nova York no encontro de mais alto nível desde o ataque.

O chefe do Mossad, David Barnea, e um alto funcionário do governo catari participaram da reunião organizada pelo enviado americano Steve Witkoff, estabelecendo um mecanismo trilateral destinado a "aprimorar coordenação, melhorar comunicação, resolver queixas mútuas e fortalecer esforços coletivos contra ameaças".

Nesse contexto, de acordo com o portal de notícias Axios, o premiê israelense indicou pretender usar o mecanismo para apresentar queixas sobre apoio catari à Irmandade Muçulmana e alegada influência em protestos anti-Israel em campos universitários americanos.

Simultaneamente, o primeiro-ministro do Catar negou especulações de que seu país financiaria reconstrução de Gaza, limitando apoio à ajuda humanitária e declarando que seu país não iria "pagar a conta para reconstruir o que outros destruíram".

Entre a cruz e a espada

A guerra contra o Irã iniciada em 28 de fevereiro de 2026 — quando EUA e Israel atacaram alvos na República Islâmica após o fracasso das negociações mediadas por Omã —, pôs o Catar no fogo cruzado, como país que abriga a base americana de Al Udeid, a maior e mais importante base avançada dos EUA no Oriente Médio, e sede do Comando Central das Forças Armadas (CENTCOM).

Ainda no primeiro dia, Doha fechou o espaço aéreo e contabilizou 16 feridos por estilhaços, em ataques retaliatórios do Irã, segundo o Ministério do Interior.

« PROJEÇÃO DE PODER E (TAMBÉM) ALVO INIMIGO: ONDE ESTÃO OS MILITARES AMERICANOS NO ORIENTE MÉDIO »

Em meados de março, forças israelenses e americanas atingiram refinarias na Zona Econômica Especial de South Pars, no litoral sul iraniano; a represália de Teerã recaiu sobre Ras Laffan, no Catar, com "danos consideráveis" relatados pela estatal QatarEnergy. 

O campo de Ras Laffan, porém, extrai gás natural do mesmo reservatório atacado por Israel — a maior reserva de gás natural do mundo, que divide no Golfo Pérsico com o Irã.

Doha atribuiu a responsabilidade a Israel e classificou a ofensiva contra instalações de gás como ameaça à segurança energética global.

Em 16 de julho, o Escritório de Mídia Internacional do Catar manifestou "rejeição categórica" a reportagens de veículos israelenses de imprensa que davam o país como participante de uma ação militar contra o Irã, atribuindo as alegações a "indivíduos que buscam envolver o Estado do Catar no conflito, minar seu papel fundamental na mediação e empurrar a região para uma maior escalada e caos".

O país, porém, manteve sua posição de mediador, dividindo a atribuição com o Paquistão, e sediou conversas técnicas indiretas entre os EUA e o Irã.

Na segunda-feira (27), autoridades regionais indicaram que Catar e Paquistão obtiveram progresso para levar americanos e iranianos de volta à mesa, após ambos os lados suspenderem os ataques.