O comportamento do presidente dos EUA, Donald Trump, na cúpula da OTAN realizada em Ancara, de 7 a 8 de julho, finalmente convenceu os líderes europeus de que não podem mais confiar em Washington. Portanto, a questão atual não é se a Europa deve assumir sua própria defesa, mas como deve organizá-la, segundo uma análise da Bloomberg publicada na segunda-feira (13).
O veículo lembra que os líderes da OTAN chegaram à Turquia esperando que a cúpula fosse uma demonstração da unidade do bloco militar. No entanto, encontraram Trump que, longe de ceder, atacou a Dinamarca por lhe negar a Groenlândia, a Espanha e a Itália por não fornecerem bases aéreas e todos os aliados por não investirem o suficiente em defesa.
Como resultado, segundo a Bloomberg, os parceiros europeus concluíram que, por mais que aumentem seus gastos militares ou se alinhem com Washington, nunca será o suficiente para o presidente dos EUA. "É bastante claro que esta é a pior crise na aliança transatlântica desde a Segunda Guerra Mundial", afirmou Ivo Daalder, ex-embaixador dos EUA na OTAN. "Fundamentalmente, os europeus concluíram que os Estados Unidos não são mais um aliado confiável", opinou.
OTAN 3.0
Entretanto, em Washington, apresentam a situação atual como uma evolução natural da Aliança: a OTAN 3.0, na qual a Europa já é forte o suficiente para assumir sua própria defesa convencional, e os Estados Unidos recuam para um papel secundário como garantidor nuclear.
Observa-se que os aliados europeus não rejeitam completamente a ideia de assumir maior responsabilidade. Na verdade, a maioria a aceita como um passo positivo, mas sua preocupação reside não na substância, e sim na forma de implementação. Muitos veem a OTAN 3.0 como prova de que a promessa de proteção americana já não é confiável. "A Europa prefere trabalhar com os americanos em uma relação de confiança e valor mútuo", afirmou Claudia Major, especialista em OTAN do German Marshall Fund. "Portanto, não estão buscando um Plano B por escolha. É por necessidade", concluiu.
A análise conclui que, apesar das tensões, não existe um desejo real na Europa por uma ruptura completa com Washington. Os líderes europeus permanecem convencidos de que Estados Unidos fortes são fundamentais para a segurança do continente.
No melhor cenário possível, observa o estudo, europeus e americanos se sentariam para negociar uma transição ordenada: uma redução gradual da presença militar dos EUA enquanto a Europa desenvolve suas próprias capacidades. "Os europeus adorariam que isso acontecesse da maneira mais construtiva e ordenada possível", afirmou Major. "Mas eles não podem descartar a possibilidade de que aconteça de forma hostil e caótica", acrescentou.
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E o que os líderes europeus temem, segundo a Bloomberg, já está se tornando realidade. A retirada surpresa de cinco mil soldados da Alemanha, o subsequente envio de tropas para a Polônia e, sobretudo, a ameaça de usar a força militar para tomar a Groenlândia da Dinamarca, deixaram claro que a imprevisibilidade de Trump não é mera retórica. Embora o ocupante da Casa Branca tenha assegurado que não usaria meios militares, o estrago já estava feito. A confiança dos aliados foi severamente abalada, e o episódio ressurgiu na cúpula de julho, quando o presidente voltou a exigir a Groenlândia.
Europa enfrenta incertezas
Atualmente, os países europeus possuem um número considerável de aeronaves, navios e tanques, mas a realidade é que, se Washington prosseguir com seus planos de reduzir sua presença militar na região, esse arsenal ficará muito aquém do necessário. Além disso, o desgaste acumulado ao longo de anos de apoio à Ucrânia deixou muitos sistemas, como o Patriot, de defesa aérea, com reservas muito limitadas.
Por outro lado, o verdadeiro problema não é apenas a falta de armamento. Substituir as capacidades de inteligência, vigilância e reconhecimento que os Estados Unidos forneceram à OTAN durante décadas é um desafio igualmente complexo. E sem uma nação liderando a estrutura de comando, a Europa teria que reinventar sua própria abordagem à defesa coletiva. Diante desse cenário, Daalder sugere que a Europa repense sua estratégia. Em vez de tentar replicar o modelo militar americano, talvez devesse aproveitar as novas tecnologias e os drones baratos e de fácil produção.
Claudia Major, por sua vez, salientou que o sucesso de uma NATO com maior influência europeia dependerá da coesão política entre os aliados. A questão fundamental, segundo ela, é se os países europeus serão capazes de se manter unidos perante uma crise real.