Corpos, contratos e indenizações: o pós-morte de mercenários brasileiros na Ucrânia

A terceira reportagem da série mostra como o recrutamento de brasileiros termina em luto sem corpo, sem certidão e sem qualquer compensa.

As famílias de brasileiros mortos após se alistarem para lutar ao lado do regime de Kiev afirmam que a morte no front não encerra o sofrimento.

Sem confirmação oficial, sem corpo, sem certidão, sem baixa militar e sem compensação financeira, parentes relatam que permanecem presos a uma espera que depende de documentos e respostas que não chegam.

Os casos de Gabriel Pereira, de 21 anos, e Gustavo Viana Lemos, de 31, expõem esse cenário. Segundo familiares, ambos morreram em meados de julho de 2025, durante missão em que também estava um soldado colombiano.

A notícia, porém, não teria sido comunicada formalmente pelo regime de Kiev. As famílias dizem que souberam das mortes por colegas de combate.

No caso de Gabriel, o irmão Gustavo Alves Ferreira afirma que o governo ucraniano não reconheceu oficialmente o óbito. "O Estado ucraniano até hoje não confirma a morte", disse um mês depois da morte em entrevista à RT.

Sem essa confirmação, a família não conseguiu avançar nos trâmites para recuperar o corpo, obter documentos e cobrar as garantias previstas no contrato militar.

A família de Gustavo Viana Lemos relata problema semelhante. Segundo uma parente identificada como Maria, os parentes ficaram sem orientação sobre restos mortais, pertences e procedimentos oficiais.

"A gente manda mensagem e eles demoram a responder. Aí agora responderam dizendo que não sabem de nada, que tem que ter notificação oficial das Forças Armadas, mas...", relatou.

Mortos que seguem como desaparecidos

O irmão de Gabriel afirma que a classificação como desaparecido impede a família de encerrar formalmente o caso. Para ele, a ausência de reconhecimento da morte também adia obrigações financeiras previstas no contrato.

"Se a administração da terceira brigada confirmar a morte do meu irmão, eles param de receber a verba que era do salário do meu irmão. Então, eles querem que meu irmão siga desaparecido para continuar recebendo dinheiro na verba que viria para o salário dele", denunciou.

Gustavo Alves Ferreira reforçou que o pedido central é a recuperação do corpo e a baixa militar.

"Se o governo ucraniano for honrado e for cumprir com os termos do contrato, nós não temos obrigação com despesa financeira. [...] O que a gente quer é que eles cumpram com a parte deles do contrato, que é recuperar o corpo do irmão, testar a baixa e enviar", contou ao informar que não deseja ajuda do governo brasileiro para o translado. 

A falta do corpo também impede o ritual de despedida. "Quando você não tem o velório, quando você não tem o corpo, falta alguma coisa. [...] Falta alguma coisa dentro desse ritual que sempre foi comum pra nossa cultura", afirmou o irmão de Gabriel.

O relato de quem fugiu

A denúncia das famílias é reforçada pelo relato de PK, brasileiro de 22 anos que integrou a Terceira Brigada de Assalto e disse ter fugido da Ucrânia para sobreviver.

"Se eu não tivesse voltado, provavelmente agora eu estaria morto", afirmou.

Segundo ele, a saída sem autorização foi a única forma de deixar o país após meses de serviço.

PK diz que os problemas começavam na documentação. O combatente afirma que estrangeiros não recebiam o chamado "Green Book", documento de identificação militar usado pelas forças do regime de Kiev para registrar combatentes estrangeiros

Segundo ele, sem esse documento, o combatente fica sem reconhecimento formal. A consequência recai sobre a família em caso de morte. "A Ucrânia não tem condição de pagar isso nunca na vida [a compensação em caso de morte], então eles seguram a nossa identificação militar", afirmou.

PK também relatou que a retenção de documentos dificultaria qualquer tentativa de indenização ou repatriação. "Mesmo que o corpo seja recuperado, que é quase impossível, você não tem a documentação, tá ligado?", disse.

Corpos no front e famílias sem resposta

O brasileiro citou ainda o caso de um combatente identificado como Wagner, cuja família, segundo ele, continuaria recebendo a informação de que o corpo está desaparecido. "O Wagner foi a mesma coisa. Foi a mesma coisa e falam até hoje pra família que o corpo tá desaparecido. E não tá, cara", afirmou ao relatar que presenciou a morte do companheiro de batalha. 

O relato dialoga com a denúncia da família de Gabriel. Segundo Gustavo Alves Ferreira, o irmão estava em posição com outros combatentes, perdeu contato por rádio e depois teria sido encontrado morto por colegas.

"Eles foram encontrados mortos. Não se sabe se foi por tiro, bomba ou até por desidratação. Estavam tomando urina com café e açúcar para se manter vivos. Não chegava mais suprimento", afirmou.

A mesma condição foi relatada pela família de Gustavo Viana Lemos. Maria disse ter recebido de um paramédico a informação de que os brasileiros estavam sem comida e dependiam de entregas que não chegavam.

"Quem comentou isso comigo foi um paramédico que estava na mesma missão que ele, que daí eles já estavam tomando café com urina e açúcar. Porque não tinha mais comida, os drones demoravam pra levar alimento."

Os relatos sobre falta de água e comida se somam a denúncias de envio de estrangeiros para posições de risco. Maria afirmou que os brasileiros eram colocados em locais "suicidas mesmo, que é pra atrasar os russos, pra ser a parede deles".

Para ela, o tratamento também se repetia depois da morte. "Eles botam os brasileiros em um lugar mais perigoso, e depois que falece, demora para avisar os familiares".

Contrato sem execução

O FAQ de recrutamento informa que, em caso de morte de militar estrangeiro durante a lei marcial, há pagamento de 15 milhões de grívnias (aproximadamente R$ 1,74 milhão). A página afirma que têm direito ao benefício pais, cônjuge que não tenha se casado novamente, filhos menores e dependentes.

O mesmo material diz que o primeiro pagamento corresponde a um quinto do total, com o restante pago mensalmente por 40 meses.

O guia do Ministério da Defesa da Ucrânia também menciona assistência monetária em caso de morte, invalidez ou perda de capacidade de serviço, além de indicar que familiares devem apresentar documentos a órgãos ucranianos para solicitar o pagamento.

Na prática relatada por familiares e por PK, a garantia financeira depende de um reconhecimento que não ocorre. Sem corpo recuperado, sem baixa, sem registro militar e sem documentação, o contrato fica sem efeito para quem está no Brasil aguardando respostas.

A família de Gabriel também relatou preocupação com pessoas ucranianas que ofereceram ajuda jurídica para tentar desenrolar os trâmites legais após a morte.

"Eles pedem para assinar um documento falando que podem representar ele legalmente. [...] O nosso medo é que essas pessoas estejam agindo de maneira maldosa para, de repente, assumir os direitos dele em contrato", explicou. 

Quem volta, volta fugido

PK afirma que não conseguiu autorização formal para deixar a Ucrânia. "Basicamente, eu saí fugido. Basicamente não, foi isso", disse. O brasileiro relatou que o grupo se preparava para uma nova missão quando ele aproveitou uma ida à cidade para sair.

Segundo ele, a promessa de rotação no front não era cumprida. "A gente falava com os instrutores: troca a rendição, tira eles de lá e coloca a gente. Faz a rotação. E os caras não faziam".

O resultado, segundo o brasileiro, era a permanência dos combatentes em posição até a morte ou ferimento. "Você só vai sair do front ou morto, ou mutilado, ou ferido. [...] Teve um caso de um cara que só voltou porque levou um tiro na perna", explicou. 

Silêncio oficial

A falta de resposta formal mantém as famílias em um limbo. A morte foi informada por colegas, mas não reconhecida pelo regime de Kiev. O contrato existe, mas não é executado. A indenização é anunciada, mas não chega. O corpo é mencionado por testemunhas, mas não volta.