Entenda como Ucrânia cria uma rede de mentiras em português para manipular brasileiros a atuarem como mercenários

Páginas on-line prometem salários em dólar, bônus e estrutura a estrangeiros, enquanto famílias relatam fome, contratos sem tradução, retenção de documentos e abandono no front.

O recrutamento de brasileiros para lutar ao lado do regime de Kiev no conflito na Ucrânia começa antes da viagem, do contrato e do envio ao front. O início se dá nas telas de celular, em páginas de redes sociais, vídeos em português, formulários de inscrição e sites que apresentam a entrada nas forças ucranianas como uma oportunidade de salário em dólar, atuação em áreas técnicas e experiência militar.

Um dos materiais voltados a estrangeiros informa que "O Ministério da Defesa da Ucrânia está implementando uma otimização abrangente do serviço militar" e apresenta a remuneração como eixo central. "A principal novidade são os novos contratos com salários mais altos". 

Não é possível afirmar que o vídeo tenha sido produzido com inteligência artificial ou se é uma produção real com uma representante. A mulher que aparece nas imagens mantém trejeitos idênticos durante toda a duração do vídeo, enquanto a dicção soa robotizada.

Vídeos em outros idiomas parecem repetir o mesmo padrão de movimento, com rostos e feições diferentes, o que indica uma campanha adaptada a públicos estrangeiros com a mesma estrutura de apresentação.

A peça não aborda riscos, regras de saída ou relatos de combate, o enfoque é apenas financeiro. O contrato de infantaria de assalto, segundo o material, prevê US$ 215 por dia em posições de combate (cerca de R$ 1,1 mil), US$ 435 por dia em combate de baixa intensidade ou reconhecimento (aproximadamente R$ 2,2 mil) e US$ 870 por dia em operações de assalto (cerca de R$ 4,5 mil).

O salário médio sob esse contrato seria de US$ 6.520 (aproximadamente R$ 33,6 mil), com teto de US$ 10 mil (cerca de R$ 51,6 mil). O salário base mensal aparece em US$ 435 (aproximadamente R$ 2,2 mil). 

Salário, bônus e linguagem de oportunidade

O site de recrutamento associado às forças ucranianas repete a mesma lógica. O site apresenta contratos para estrangeiros, vagas em unidades de drones, artilharia, guerra eletrônica e infantaria, além de funções como motorista, sapador, operador de drones e reconhecimento. Também informa que o candidato não precisa ter experiência militar ou de combate, desde que apresente habilidades consideradas úteis.

No contrato de combate, ligado a drones, artilharia e guerra eletrônica, a remuneração anunciada vai de US$ 650 (cerca de R$ 3,3 mil) a US$ 2.610 (aproximadamente R$ 13,5 mil). O contrato para serviço na retaguarda aparece com salário de US$ 650 (cerca de R$ 3,3 mil), enquanto missões especiais poderiam chegar a US$ 1.520 (aproximadamente R$ 7,8 mil).

O material também oferece recompensas por ações no campo de batalha. A página informa pagamento de US$ 2.175 por cada soldado inimigo capturado (cerca de R$ 11,2 mil) e US$ 325 por cada soldado inimigo eliminado em combate corpo a corpo ou tiroteio (aproximadamente R$ 1,7 mil). Há ainda menção a auxílio anual para saúde de US$ 435 (cerca de R$ 2,2 mil).

Todos os pagamentos são feitos em grívnias, a moeda ucraniana, em cartão bancário do voluntário estrangeiro. A conversão em dólar, usada no próprio material, cria uma expectativa de renda para o público de fora, embora relatos de brasileiros e familiares indiquem que parte das despesas de permanência, alimentação, gás, equipamento e deslocamento recai sobre os próprios combatentes.

A página informa que o alistamento não tem taxa. Ao mesmo tempo, admite que o candidato pode ter de pagar por fotos, necessidades pessoais e hospedagem antes da regularização dos documentos, que pode levar semanas. Também informa que as forças ucranianas não arcam com despesas de viagem até a fronteira, o que transfere ao estrangeiro o custo inicial para chegar ao Leste Europeu.

O caminho apresentado ao voluntário

O processo descrito pelo Foreign Recruitment Center inclui envio de documentos, análise inicial, entrevista online, orientação para chegada à Ucrânia, checagem, exame médico, abertura de conta bancária, assinatura de documentos e posterior deslocamento para treinamento. Em português, outro vídeo instrui candidatos a preencher formulários e enviar arquivos pessoais.

A orientação começa com a frase "Olá, tudo bem? Hoje vamos mostrar o passo a passo de como você fará o seu cadastramento para se juntar às forças de defesa da Ucrânia".

A sequência inclui sete etapas, que envolvem o preenchimento de formulários on-line e o envio de arquivos em formatos como JPG ou PDF. "Pedimos que tenham um pouco de paciência, mas todas serão atendidas", conclui o vídeo.

O guia do Ministério da Defesa da Ucrânia para estrangeiros afirma que o alistamento ocorre por contrato, que o estrangeiro deve ter entre 18 e 60 anos, não possuir condenação anterior, estar legalmente na Ucrânia, passar por avaliação de saúde, seleção profissional e psicológica, além de demonstrar preparo físico.

O documento também informa que estrangeiros recebem status de integrantes das Forças Armadas ucranianas e têm direitos e deveres semelhantes aos de militares ucranianos em mesma posição.

O mesmo guia afirma que, na ausência de experiência militar ou de combate, estrangeiros devem ser enviados a centros de treinamento ou unidades para adquirir a função necessária antes de serem deslocados à área de combate. O contrato para soldados rasos dura três anos, e há um período de experiência de dois meses.

A promessa de dinheiro

Essa estrutura formal é recebida por famílias brasileiras como parte de uma sequência de convencimento.

A propaganda fala em salário, contrato, apoio, alimentação, alojamento, equipamento e funções técnicas. Os relatos de familiares e brasileiros que conseguiram denunciar a própria situação apontam outro caminho: custos próprios, falta de comida e água, documentos retidos, envio ao front e dificuldade para sair.

Um dos casos é de Gabriel Pereira, o irmão Gustavo Alves Ferreira afirma que o jovem foi atraído por páginas nas redes sociais que prometiam "salário de até 25 mil reais, seguro de vida e ajuda de custo".

Segundo ele, a renda anunciada não se converteu em estabilidade. "O  dinheiro que ele ganha lá ele gasta lá mesmo. Comida, uniforme, equipamentos, transporte. A economia gira dentro do país. Ele não teve condição de mandar um centavo pra casa", relatou.

Gabriel comprou passagem com recursos próprios, escondeu a ida da família e assinou contrato militar sem tradutor. Ele morreu no front. 

A família de Gustavo Viana Lemos, outro brasileiro que morreu em combate, descreve situação semelhante. Segundo Maria, parente do brasileiro, ele viajou acreditando que receberia bem e poderia ajudar os pais, mas passou a depender de apoio financeiro enviado do Brasil.

Maria diz que a família enviava entre R$ 200 e R$ 500 para cobrir despesas. O dinheiro era usado para necessidades que, segundo a propaganda e o contrato, deveriam ser garantidas pela estrutura militar.

"Eles que tinham que comprar comida, gás, eles tinham que comprar tudo... eu acho que daí faltava dinheiro e aí eles tinham que pedir [dinheiro], aí eles pediam para os outros soldados lá, pediam para os familiares", contou.

A promessa de estrutura

Os materiais oficiais falam em alimentação, alojamento, assistência e equipamentos. O guia do Ministério da Defesa da Ucrânia afirma que estrangeiros incorporados às forças ucranianas têm direito a salário, alimentação, uniforme, equipamentos, treinamento e garantias sociais em termos semelhantes aos militares ucranianos da mesma posição.

Nos relatos das famílias, a rotina era outra. Gustavo Viana Lemos enviou vídeos em que apareciam alojamentos improvisados, áreas de terra, vegetação e espaços subterrâneos usados para dormir.

Segundo os familiares, os brasileiros também tinham de comprar itens de sobrevivência e equipamentos de proteção, além de custear parte da própria permanência.

A denúncia de falta de suprimentos aparece nos dois casos. O irmão de Gabriel afirmou que, nas semanas finais, os soldados ficaram sem água e comida.

"Eles estavam tomando urina com café e açúcar para poder hidratar, porque não estava chegando mais alimentos, né? Alimento, água, tal, suprimentos, não estavam chegando", explicou. 

Maria recebeu relato semelhante de um paramédico que estava na mesma missão de Gustavo Viana Lemos. "Quem comentou isso comigo foi um paramédico que estava na mesma missão que ele, que daí eles já estavam tomando café com urina e açúcar. Porque não tinha mais comida, os drones demoravam pra levar alimento". 

A promessa de função técnica

O site de recrutamento apresenta vagas em drones, artilharia, guerra eletrônica e outras áreas técnicas. Lucas Felype, porém, afirmou nas redes sociais que foi à Ucrânia para atuar com tecnologia militar, mas acabou empurrado para a infantaria.

"Eles estão colocando uma arma na minha mão e me levando pra uma zona de guerra sem o meu consentimento. Isso nunca foi o combinado", disse.

Em outro vídeo, Lucas afirmou que a função combinada havia sido alterada depois da chegada ao país. "Essa sempre foi a minha intenção, ajudar, mas de forma técnica. Mas desde que cheguei aqui, tudo mudou. Eles estão me empurrando aos poucos para funções de infantaria e agora me mandaram para Kharkov, uma região de intenso combate militar".

Gabriel Pereira também não estaria em função técnica quando morreu, segundo o irmão. "Ele não estava operando drone, não estava em funções técnicas. Ele estava com fuzil, segurando posição, com outros dois soldados. [...] Isso não é missão, é suicídio", disse Gustavo Alves Ferreira.

A promessa de escolha

Familiares relatam que brasileiros e outros estrangeiros eram enviados para áreas de maior risco. O irmão de Gabriel afirma que havia diferença de tratamento entre ucranianos e estrangeiros.

"Mandam os brasileiros, colombianos, angolanos. Os ucranianos não vão", explicou à RT

Segundo ele, os combatentes diziam que estrangeiros eram usados "para servir de colete para o ucraniano".

Maria, parente de Gustavo Viana Lemos, relatou a mesma percepção. "Eles botam os brasileiros em um lugar mais perigoso, e depois que falece, demora para avisar os familiares".

Ela também afirmou que os brasileiros eram enviados a posições "suicidas mesmo, que é pra atrasar os russos, pra ser a parede deles"

A promessa de assistência

O contrato e os materiais do Ministério da Defesa da Ucrânia mencionam assistência médica, alimentação, treinamento, equipamento e compensação financeira. O guia também afirma que o Ministério se compromete a garantir saúde, uniformes, armamento, munição e outras condições previstas em lei.

No caso de Gabriel, segundo o irmão, a assistência não impediu que ele fosse mantido na linha de frente mesmo ferido.

"Ele estava com o braço quebrado [...] Foi obrigado a permanecer na posição ferido. [...] Tem prova disso, é vídeo", afirmou.

Depois da morte, as famílias relatam outra quebra de promessa: a falta de comunicação formal. No caso de Gustavo Viana Lemos, Maria afirma que os parentes não receberam respostas suficientes do regime de Kiev.

"A gente manda mensagem e eles demoram a responder. Aí agora responderam dizendo que não sabem de nada, que tem que ter notificação oficial das Forças Armadas, mas...", relatou.

A vitrine do recrutamento mostra salários, bônus, contratos e vagas. Os relatos de brasileiros e familiares apontam uma sequência de promessas quebradas: renda que vira custo, função técnica que vira infantaria, contrato que vira dependência, assistência que não chega, comida que falta, água que desaparece e morte que não é reconhecida.