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Caça aos fantasmas: auditoria estadual expõe comissionados sem expediente em todo o governo do Rio

Influenciadores digitais, familiares de políticos e líderes comunitários compõem lista de alta criticidade, em meio a uma onda de exonerações sob o governo interino de Ricardo Couto.
Caça aos fantasmas: auditoria estadual expõe comissionados sem expediente em todo o governo do RioGettyimages.ru / KinoMasterskaya / NurPhoto / Colaborador

A Controladoria Geral do Estado (CGE) do Rio de Janeiro, nos resultados de auditoria publicados na semana passada, identificou um cenário alarmante no governo do estado: todos os 77 órgãos públicos estaduais abrigavam funcionários comissionados classificados como de "alta criticidade", um termo técnico que qualifica servidores aparentemente fantasmas.

O levantamento, iniciado em março sob a gestão interina do desembargador Ricardo Couto, utilizou critérios objetivos como ausência de registros em catracas, falta de acesso a computadores e ao Sistema Eletrônico de Informações.

Até junho, sob sua direção no governo do estado, mais de 4.200 funcionários foram exonerados, gerando economia estimada em R$ 230 milhões até o fim do ano, segundo apontamento do g1; veículos locais já registram novas exonerações desde a publicação, na quinta-feira (2).

Dentre as secretarias com alto nível de criticidade, a pasta de Trabalho e Renda chegou a 78% de comissionados sem indícios de exercício funcional, seguida por Esporte e Lazer (75%) e Turismo (73%).

Em busca das aparições

Os relatos dos exonerados localizados pela reportagem do jornal O Globo, publicada nesta sexta-feira (3), revelam um padrão comum de justificativas vagas e trabalhos externos não comprovados.

Marcelo Cabral D'Almeida, filho do ex-vereador Marcelino Almeida (Progressistas), recebia cerca de R$ 11 mil mensais na Subsecretaria de Manutenção de Áreas Verdes Urbanas. "Nem lembro o nome da pessoa no primeiro momento, tipo um supervisor", afirmou, quando questionado sobre seus superiores hierárquicos.

Apesar de afirmar familiaridade com a área, admitiu não possuir formação específica em meio ambiente — requisito que, segundo ele, não foi exigido. Marcelo integrava uma subsecretaria integralmente extinta, onde 14 cargos eram ocupados majoritariamente por indicados dos irmãos Luciano e Léo Vieira (Republicanos), políticos influentes da Baixada Fluminense.

Conhecida como "blogueirinha de São Marcos" e autodenominada "missionária digital" com dezenas de milhares de seguidores, Bruna Castello Branco Costa Motta estava lotada na Secretaria de Ambiente com remuneração mensal significativa. Seu perfil no LinkedIn indicava atuação como "coordenadora de marketing no governo do Estado", cargo não oficialmente registrado nos documentos da pasta.

Já Allen Carvalho, líder comunitário na Barreira do Vasco, permaneceu apenas dois meses no cargo, alegando atividades externas sem especificar atribuições concretas. Sintilaine Alessandra de Souza Silva, vinculada à família Vieira em São João de Meriti, evadiu questionamentos da reportagem, declarando estar doente e se recusando a esclarecer suas funções ou remuneração.

A situação de Marcus e João Von Seehausen exemplifica conexões políticas intergeracionais. O pai, com histórico no PTB de Petrópolis e ligações com deputados investigados na Operação Furna da Onça — operação da Polícia Federal de 2018, que ganhou repercussão nacional por envolver um ex-assessor do então deputado estadual Flávio Bolsonaro (Republicanos) —, recebia salário líquido superior a R$ 12 mil sem registros de acesso aos sistemas ou ao local de trabalho. O filho, advogado criminalista e candidato a vereador em 2024 pelo MDB, foi nomeado na Casa Civil após as eleições, com rendimentos de R$ 10,3 mil.

Ambos foram localizados com dificuldade, e João admitiu ter assinado ponto apenas no dia da exoneração, defendendo-se de ser fantasma por "atuar em campo", mas proibindo o uso de suas declarações.

O ex-secretário Bernardo Rossi (Solidariedade), da pasta de Ambiente e Sustentabilidade do governo Cláudio Castro, negou categoricamente ter nomeado servidores inativos, argumentando que muitos desenvolviam atividades de campo em programas ambientais