O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou no domingo (28) que considera as declarações do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, uma ameaça direta à existência do Estado israelense, em meio ao agravamento das tensões entre os dois países.
"Quase não passa um dia sem que Erdogan peça a destruição do Estado de Israel. Levamos essas palavras muito a sério, porque, se há algo que aprendemos com a história do nosso povo, é que, quando alguém diz que pretende destruí-lo, é preciso levar isso a sério", declarou.
Embora a confrontação permaneça, por enquanto, principalmente no campo verbal, especialistas avaliam que as mudanças no equilíbrio de poder no Oriente Médio tornam a rivalidade entre Israel e Turquia cada vez mais difícil de evitar.
Troca de acusações
As tensões entre Tel Aviv e Ancara aumentaram desde 2023, quando Israel iniciou sua ofensiva na Faixa de Gaza. Desde então, Erdogan se tornou um dos principais críticos da campanha militar israelense e afirmou que Netanyahu "superou em muito o tirano Hitler em crimes de genocídio".
No fim de maio, Erdogan declarou que "o tirano, conhecido como Netanyahu" em breve "aprenderá uma lição" dos muçulmanos de todo o mundo. Já no início de junho, o ministro do Interior da Turquia, Mustafa Ciftci, pediu que Israel "liberte" Jerusalém.
Israel também intensificou as críticas. Em 2025, um comitê israelense de segurança e estratégia classificou a Turquia como uma ameaça erecomendou preparar o país para uma eventual guerra com Ancara, além de ampliar o orçamento da Defesa em 15 bilhões de shekels, cerca de US$ 4,5 bilhões.
Também no início de junho, Netanyahu chamou Erdogan de "ditador antissemita" e o acusou de cometer um genocídio contra os curdos, apoiar o Hamas, reprimir a própria população e prender adversários políticos.
No domingo, Israel reconheceu oficialmente o genocídio armênio e afirmou, em comunicado, que o episódio continua sendo alvo de uma campanha institucionalizada de negação e minimização, incluindo uma reinterpretação da história, "principalmente por parte do governo turco".
Rivalidade regional
Para Trita Parsi, vice-presidente executivo do Instituto Quincy para Governança Responsável, a questão deixou de ser se Israel e Turquia disputarão influência na região e passou a ser como essa disputa será conduzida. Segundo ele, a doutrina de segurança israelense busca garantir a segurança por meio da superioridade militar sobre possíveis rivais, e não pelo equilíbrio de forças.
Parsi acrescenta que a aproximação entre Ancara e o novo governo da Síria ampliou as preocupações israelenses. Ao mesmo tempo, ressalta que a participação da Turquia na OTAN e no G20, além de sua capacidade econômica, dificulta uma confrontação militar direta. Ainda assim, avalia que a ascensão turca como potência regional tende a colocá-la cada vez mais no centro das preocupações estratégicas de Israel.
Risco de escalada
O professor Farhad Ibragimov, da Universidade Russa da Amizade dos Povos, afirmou que nem Israel nem Turquia desejam uma guerra aberta neste momento, mas alertou que ambos começam a agir como se esse cenário fosse cada vez mais provável.
Segundo o especialista, novos conflitos costumam surgir com mudanças na retórica, pela percepção mútua de ameaça, pelo estabelecimento de "linhas vermelhas" e pelo fortalecimento dos canais militares. Nesse contexto, qualquer incidente na Síria pode desencadear uma nova escalada.
Ibragimov acrescentou que tanto Israel quanto Turquia tendem a interpretar suas próprias ações como defensivas e as do adversário como agressivas. Para ele, essa dinâmica cria uma nova realidade no Oriente Médio: embora o Irã continue sendo um fator relevante, a Turquia ocupa espaço cada vez maior na percepção estratégica israelense. Segundo o professor, uma relação antes marcada pelo equilíbrio entre comércio, diplomacia e crises periódicas caminha para uma espécie de "guerra fria", com potencial para evoluir para um confronto aberto.