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Chefe de Gabinete de Milei renuncia após escândalos de corrupção

Manuel Adorni deixou o cargo após ser acusado de suposto enriquecimento ilícito e pressionado por denúncias sobre viagens, imóveis e gastos em dinheiro vivo.
Chefe de Gabinete de Milei renuncia após escândalos de corrupçãoGettyimages.ru / Luciano Adan Gonzalez Torres / Anadolu

O chefe de Gabinete da Argentina, Manuel Adorni, renunciou neste sábado (27) após os múltiplos escândalos em que se envolveu nos últimos meses e que levaram à abertura de um processo judicial por suposto enriquecimento ilícito.

A trajetória pública de Adorni, de 46 anos, começou em 10 de dezembro de 2023, quando Javier Milei assumiu a Presidência e o nomeou porta-voz do governo. Desde o início, ele foi um dos funcionários mais próximos do mandatário e de sua irmã, Karina Milei, secretária-geral da Presidência. No fim de 2025, foi promovido a chefe de Gabinete.

Em pouco mais de dois anos, Adorni, que não tinha experiência política e havia chegado das redes sociais aos meios de comunicação graças a publicações provocativas, mudou completamente seu estilo de vida e passou a assumir gastos milionários incompatíveis com sua renda, que até agora não conseguiu explicar à Justiça.

A crise política e judicial provocada por Adorni, que se tornou um dos maiores escândalos do governo, começou em março, quando foi revelado que ele havia levado sua esposa, Bettina Angeletti, no avião presidencial, como parte de uma comitiva oficial que viajou a Nova York.

"Se matar de trabalhar"

O caso gerou controvérsia porque uma das palavras de ordem que ajudaram Milei a vencer a eleição presidencial foi "combater a casta" de políticos privilegiados. Além disso, desde o primeiro momento, Adorni passou a acumular frases e episódios infelizes que viralizaram, viraram memes e entraram na cultura popular.

"São trabalhos muito sacrificantes e, na verdade, era meu desejo que minha mulher me acompanhasse (...), venho passar uma semana me matando de trabalhar aqui", afirmou sobre a viagem a Nova York. Desde então, as ironias sobre políticos que "se matam de trabalhar" não pararam.

Paralelamente, a imprensa começou a revelar viagens de luxo e a compra de imóveis que não haviam sido informados em suas declarações patrimoniais. Também foi revelado que ele pagava suas aquisições e despesas com centenas de milhares de dólares em dinheiro vivo, cuja origem não foi demonstrada e que, em todo caso, não correspondiam aos rendimentos de seu cargo público.

Entre as viagens estão as férias que fez com a esposa em Punta del Este, no Uruguai, para onde voaram em um avião particular. Para ir a Aruba, contrataram classe premier. Já na cidade patagônica de Bariloche, hospedaram-se no Llao Llao, um dos hotéis mais luxuosos da Argentina.

Quanto aos imóveis, o casal Adorni gastou US$ 230 mil em um apartamento em Buenos Aires e outros US$ 120 mil em uma casa em um condomínio fechado. Durante a investigação judicial, descobriu-se que eles teriam conseguido comprar os imóveis graças a empréstimos misteriosos feitos por mulheres aposentadas, que declararam não conhecer pessoalmente o chefe de Gabinete.

A tabeliã e o empreiteiro

À medida que as suspeitas e acusações contra ele aumentavam, Adorni concedeu uma tensa entrevista coletiva na qual insultou repórteres. "Você é apenas um jornalista, não um juiz", respondeu com desprezo a um dos comunicadores credenciados na Casa Rosada.

Milei e todo o gabinete tentavam diariamente abafar os escândalos envolvendo Adorni, mas acontecia o contrário. No fim de março, o chefe de Gabinete e sua esposa passaram a responder por suposto enriquecimento ilícito, o que levou sua tabeliã, Adriana Nechevenko, a ganhar espaço na mídia.

Com seu estilo descontraído, a profissional que lavrou as escrituras dos novos imóveis de Adorni tornou-se imediatamente uma nova personagem de destaque. Em vez de ajudar o funcionário, ela acabou reconhecendo anomalias na compra das propriedades.

Em uma sequência que já parecia uma série de ficção, entrou em cena mais tarde o empreiteiro Matías Tabar, que chegou ao tribunal com um relatório detalhado das reformas de US$ 240 mil pagas em dinheiro pelo casal Adorni para a remodelação integral da casa no condomínio fechado, comprada por US$ 120 mil. As obras incluíam uma cascata na piscina, o que também gerou uma onda de piadas.

No início, os integrantes do gabinete demonstravam apoio público a Adorni, mas, nos bastidores, crescia a pressão da maioria dos ministros e de outros políticos e jornalistas influentes alinhados ao governo para que ele deixasse o cargo.

Criptomoedas

Adorni afirmou repetidas vezes que já tinha pronta sua nova declaração patrimonial, que a apresentaria antes do fim do prazo e que provaria não ter cometido nenhum crime.

Em junho, quando a polêmica em torno de sua figura já acumulava mais de três meses seguidos e desgastava cada vez mais a imagem do governo, não apenas a dele, o chefe de Gabinete anunciou em uma entrevista televisiva que já havia entregue sua declaração de bens. A verdadeira surpresa, porém, foi o argumento apresentado para justificar seu rápido enriquecimento.

Segundo a versão do político, em 2002 ele encontrou dinheiro na casa do pai, que havia morrido, e uma década depois investiu o valor na compra de bitcoins.

Isso teria permitido que o montante, inicialmente de US$ 200 mil, se transformasse em US$ 500 mil, jamais declarados às autoridades para evitar o pagamento de impostos. Ele não demonstrou preocupação em admitir que havia sonegado.

Adorni também afirmou que decidiu guardar por anos a carteira virtual que continha essa fortuna e só começou a usá-la quando se tornou funcionário público.

O escândalo só aumentou. As menções e piadas sobre Adorni bateram recordes nas redes sociais, já que imediatamente começaram a circular arquivos de suas declarações dos últimos anos, nas quais ele afirmava não entender nada sobre o mundo das criptomoedas, além de fotos de um estilo de vida precário que não condizia com o de alguém que tinha meio milhão de dólares guardados.

Além disso, especialistas do setor explicaram que, há uma década, era impossível alguém investir US$ 200 mil em bitcoins, o que indicava que o chefe dos ministros estava mentindo. A partir desse momento, ele passou a ser considerado um morto político.