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Brasil caminha para emissão de Panda Bonds na China e rejeita constrangimento dos EUA

Tesouro Nacional entregou ao Banco Popular da China a carta de intenções para a operação, que poderá ocorrer nos próximos meses. Dario Durigan afirma que a operação integra um planejamento iniciado há anos e será conduzida conforme os interesses do governo brasileiro.
Brasil caminha para emissão de Panda Bonds na China e rejeita constrangimento dos EUA

O Brasil avançou no processo de emissão de títulos da dívida pública em yuan, conhecidos como Panda Bonds. Na quarta-feira (24), o ministro da Fazenda, Dario Durigan, participou, em Pequim, da entrega da carta de intenções do Tesouro Nacional ao Banco Popular da China.

Durigan afirmou em declaração à jornalistas que a operação integra o planejamento do Ministério da Fazenda e negou que o governo brasileiro esteja submetido a pressões dos Estados Unidos. Segundo o ministro, a iniciativa não tem relação com os atritos entre Brasília e a Casa Branca.

"Nós temos uma estratégia nacional e essa estratégia vai ser executada independentemente de forças estrangeiras, diferentemente do que alguns querem no Brasil. Mas quem lidera um país soberano como o Brasil deve executar sua estratégia soberana independentemente de constrangimentos do exterior", disse o ministro.

A previsão é que os títulos sejam lançados "nos próximos meses". O governo acompanha as condições do mercado chinês para definir a data da emissão e não divulgou o valor estimado para a captação, tratado pela equipe econômica como informação estratégica.

Operação amplia acesso ao mercado chinês

Mas o que exatamente são os Panda Bonds e por que eles despertam tanto interesse?

Os Panda Bonds são títulos de dívida emitidos por governos, empresas ou instituições estrangeiras dentro do mercado financeiro chinês e cotados em yuan, a moeda da China.

Na prática, funcionam como um empréstimo, ou um investimento. O emissor vende títulos para investidores chineses, recebe recursos em yuan e se compromete a devolver o valor captado acrescido de juros em uma data futura.

Se o Brasil concretizar a operação, será como se o governo brasileiro "pegasse dinheiro emprestado" diretamente de investidores da China, em vez de recorrer apenas aos mercados financeiros tradicionais, como do Fundo Monetário Internacional (FMI), sob comando do Ocidente.

Funcionamento do mecanismo

Imagine que o governo brasileiro queira captar recursos no exterior para investimentos locais ou mesmo para fins de reserva, como controle cambial.

Em vez de emitir títulos em dólar para investidores de Nova York ou Londres, ele lança títulos em Pequim.

O processo, de forma simplificada, seria:

O Tesouro Nacional emite os títulos; investidores chineses compram esses papéis; o Brasil recebe os recursos em yuan; ao longo dos anos, paga juros aos investidores; no vencimento, devolve o valor principal da operação.

É exatamente o mesmo mecanismo utilizado quando governos emitem títulos públicos em outros mercados, mesmo o interno, com instrumentos como a Letra do Tesouro Nacional (LTN).

Diversificação

Hoje, boa parte das operações financeiras internacionais ainda gira em torno do dólar. Isso significa que países, empresas e investidores ficam mais expostos às oscilações da moeda norte-americana e às condições do mercado financeiro dos Estados Unidos.

Trata-se de um objetivo do BRICS reduzir a dependência da moeda de Washington. Rússia e China, por exemplo, já negociam quase todas suas trocas comerciais em yuan ou rublos.