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Europa está derretendo e surge a pergunta mais quente: cadê o ar-condicionado?

Ondas de calor recordes estão atingindo o continente, mas milhões de residências não têm ar-condicionado, mostrando a vulnerabilidade estrutural ao aumento das temperaturas.
Europa está derretendo e surge a pergunta mais quente: cadê o ar-condicionado?Gettyimages.ru / Marc Piasecki

A Europa está sufocando sob uma onda de calor implacável. Registros de temperatura estão caindo um após o outro e meteorologistas alertam que o pior ainda ainda está por vir. Mas, além da emergência climática, essa crise expôs uma fragilidade muito mais profunda: a incapacidade estrutural do continente de se adaptar a uma nova realidade.

Calor implacável

O início do verão na Europa está sendo escaldante. A situaçãoé pior na Europa Ocidental: Paris está perto dos 40 graus, Madri ultrapassa os 38, Frankfurt chega aos 37 e Bruxelas aos 36.

Os serviços meteorológicos já registraram recordes históricos para junho e alertam que novas máximas podem ser quebradas nos próximos dias. As consequências já são visíveis. Na França, cerca de 68 mil casas ficaram sem eletricidade devido à sobrecarga da rede. Londres ativou o alerta vermelho para calor extremo. Pelo menos 40 pessoas morreram afogados na França nos últimos dias enquanto tentava fugir do calor em áreas desprotegidas.

Sem ar condicionado

O mais revelador é que, apesar das temperaturas cada vez mais extremas, o ar condicionado ainda é quase um luxo na Europa. Enquanto apenas 20% dos domicílios europeus possuem o item, nos Estados Unidos esse número chega a 90%.

Durante décadas não houve necessidade. O clima ameno, especialmente no norte, tornou o ar condicionado dispensável. Mas o clima mudou mais rápido que a Europa. Hoje, milhões de europeus enfrentam temperaturas extremas praticamente desarmados.

Muito mais que uma onda de calor

A Europa é o continente que esquenta mais rápido em todoo planeta, a uma taxa entre duas e três vezes a média global. No entanto, sua infraestrutura europeia não foi projetada para suportar o calor extremo. Quando as temperaturas sobem, os trilhos dos trens entortam, os cabos elétricos se rompem, as casas se tornam armadilhas de calor e milhares de pessoas morrem.

Como os preços da energia na Europa são consideravelmente mais altos do que nos Estados Unidos, nem todos podem comprar um ar condicionado, e os rendimentos dos europeus são inferiores aos dos americanos. Em 2025, o preço médio de eletricidade nos Estados Unidos era de cerca de 0,2 dólares por quilowatt-hora, enquanto na Alemanha, Irlanda, Reino Unido e Bélgica esse número era mais que o dobro.

Muitos edifícios europeus foram construídos antes que os sistemas de ar condicionado se generalizassem, portanto, instalar um deles pode ser problemático.

Burocracia contra sobrevivência

O custo não é o único obstáculo. Muitas vezes, o principal problema é a burocracia europeia e as motivações políticas. Richard Salmon, Diretor da empresa britânica Air Conditioning Company, afirmou à CNN que as autoridades britânicas costumam recusar pedidos de instalação de ar condicionado "por causa do visual da unidade condensadora externa, especialmente em áreas de conservação ou em edificações declaradas de interesse histórico." 

Há também uma 'lógica' política por trás disso. A Europa fez da neutralidade climática até 2050 um dos seus pilares estratégicos. Uma expansão maciça do ar condicionado implicaria em mais consumo de energia e colocaria essas metas em risco.

O resultado é um paradoxo crescente: enquanto as temperaturas estão subindo, a infraestrutura e as políticas europeias não conseguiram se adaptar a essa nova realidade. Toda onda de calor mostra esse despreparo e agrava o impacto na população.