Advocacia, traficantes e paramilitares: o que está por trás da fortuna de Abelardo de la Espriella

O candidato à presidência, que se promove como uma marca pessoal, exibe seu gosto pelo luxo em suas redes sociais.

"Um milionário que fez fortuna por conta própria". Essa parece ser a definição veiculada pela mídia sobre o candidato à presidência Abelardo de la Espriella, que lidera o segundo turno das eleições na Colômbia, de acordo com os resultados da pré-contagem.

O advogado de 47 anos, representante da ala mais conservadora da política colombiana, tem sido classificado pela grande mídia como um homem de sucesso que construiu, passo a passo, sua fortuna entre a Colômbia, os EUA e a Itália.

De la Espriella parece se encaixar perfeitamente a essa elite de super-ricos que se vinculam publicamente à política por meio de sua influência em diferentes governos e que têm como ícone o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Segundo alguns cálculos, sua fortuna poderia chegar a US$ 10 milhões, segundo a mídia colombiana.

A imagem que se formou do líder do movimento Defensores pela Pátria é a de um jurista de sucesso, proprietário do escritório De La Espriella Lawyers, fundado em 2002. No entanto, parte desse reconhecimento se deve à defesa de figuras polêmicas ligadas ao tráfico de drogas, a grupos paramilitares e ao empresariado corrupto.

O advogado dos casos obscuros

Com seu escritório de advocacia, De la Espriella se envolveu na defesa de casos de corrupção, apropriação de bens públicos e grupos paramilitares.

Um de seus clientes foi David Murcia Guzmán, um empresário acusado de lavagem de dinheiro e esquemas de pirâmide que cumpriu pena nos EUA e foi extraditado para a Colômbia, onde foi condenado em 2019 a 22 anos de prisão, segundo a Casa Macondo.

Ele também foi defensor dos primos Manuel, Miguel e Guido Nule, condenados por peculato e pela gestão irregular de contratos de obras públicas em Bogotá, no valor aproximado de US$ 48 milhões.

O candidato, cuja ligação pessoal e política com o ex-presidente Álvaro Uribe é de conhecimento público, também foi advogado do ex-senador Jorge Visbal Martelo, que mantinha vínculos com as Autodefensas Unidas da Colômbia (AUC) e com seu líder, Carlos Castaño Gil, conforme a sentença da Suprema Corte de Justiça.

Enquanto De la Espriella esteve à frente da polêmica Fundação Iniciativas pela Paz (Fipaz) — que foi acusada de ter ligações com grupos paramilitares usando o processo de paz como fachada —, ele defendeu Diego Fernando Murillo, conhecido como "Don Berna", chefe das AUC e da Oficina de Envigado, uma organização narcocriminosa que se estabeleceu em Medellín nas décadas de 80 e 90.

O empreendedor

A Colômbia é considerada um dos países mais empreendedores do mundo e o primeiro da América Latina, segundo o Global Entrepreneurship Monitor (GEM). Isso ocorre apesar da precarização do mercado de trabalho gerada pela criação de startups difíceis de sustentar a longo prazo, como alternativas aos empregos formais.

De la Espriella, que atua como uma marca pessoal de empreendimentos, posicionou-se na opinião pública como um bon vivant com gostos caros e refinados, segundo o site Las Dos Orillas. Essa imagem de homem apaixonado pela dolce vita baseia-se em suas raízes italianas, das quais ele também tirou proveito financeiro.

Seu site "De la Espriella Style" tem como público-alvo "os amantes da dolce vita" e "os apaixonados por aprender e desfrutar das maravilhas de uma vida cheia de estilo".

No catálogo de produtos, ele oferece uma marca de vinho chamada Fratellone, que custa US$ 55 a garrafa; um rum envelhecido por 18 anos chamado Defensor, que custa US$ 100 por unidade; roupas, livros, café e até discos nos quais ele interpreta "O sole mio" e "Volare".

"Ele conquistou o sucesso e a fama ainda muito jovem, mas em seu espírito criativo renascentista fervilhava o artista, o cantor, o intérprete", afirma seu site.

As empresas

Uma reportagem do La Silla Vacía constatou que existem 35 empresas na Colômbia, no Panamá e nos EUA com as quais De la Espriella "mantém uma relação atual ou muito recente". Desse grupo, 15 estariam diretamente ligadas a ele.

A diversificação é ampla. O candidato à presidência atua nos setores de pecuária, imóveis, atividades imobiliárias e comércio de seus produtos de luxo.

Da mesma forma, o referido veículo de comunicação descobriu que o advogado teria cerca de 19 propriedades em seu país, que teriam sido adquiridas entre cinco e dez anos atrás, quando sua vida profissional se concentrava na defesa de figuras polêmicas.

Seus bens também estariam localizados em La Florida, EUA, onde ele registrou pelo menos 14 empresas, das quais seis estão inativas.