A chama que nunca se apaga: conheça a história do memorial de guerra mais sagrado da Rússia

Inaugurado em 1967, o Túmulo do Soldado Desconhecido abriga os restos mortais de um combatente sem identificação e preserva a lembrança dos que morreram na defesa de Moscou durante a Grande Guerra Patriótica.

A Rússia carrega no seu território uma das mais densas geografias de morte do século XX: ao longo de quatro anos de Guerra Patriótica — como os russos chamam o conflito travado entre 1941 e 1945 — o país perdeu entre 26 e 27 milhões de pessoas, entre militares e civis.

Em resposta a essa tragédia, foram erguidos em todo o território russo monumentos ao Soldado Desconhecido, transformados em símbolos da memória coletiva das perdas sofridas pelo país.  

O Túmulo do Soldado Desconhecido de Moscou

No coração de Moscou, encostado à muralha do Kremlin, ergue-se um dos monumentos mais carregados de simbolismo do mundo pós-soviético: o Túmulo do Soldado Desconhecido. O complexo memorial foi inaugurado em 8 de maio de 1967. Ali, diante de uma laje tumular, arde a inscrição em bronze: "Teu nome é desconhecido, teu feito é imortal".

A chama não foi acesa simbolicamente: na cerimônia de inauguração, Leonid Brejnev recebeu numa tocha o fogo trazido de Leningrado — aceso no Campo de Marte, onde desde 1957 ardia em memória das vítimas da Revolução e da Guerra Civil —, e com ela deu início à Chama Eterna em Moscou. A tocha havia chegado da cidade do Neva a bordo de um veículo blindado, percorrendo todo o trajeto até a Praça Manège. 

O soldado ali sepultado não é apenas um símbolo — trata-se de restos mortais reais, exumados de uma vala coletiva nas cercanias de Zelenograd, a 40 quilômetros de Moscou, local de combates particularmente sangrentos durante a defesa da capital soviética no inverno de 1941. Em 1966, a sepultura coletiva foi aberta e o caixão de um dos soldados foi colocado numa urna coberta com uma faixa laranja-e-preta — símbolo da Ordem da Glória. Guardas de honra, revezando-se a cada duas horas, velaram o caixão durante a noite.

A origem institucional do monumento revela muito sobre a política memorial soviética. Foi somente em 1966 que o primeiro-ministro Alexey Kosygin, voltando de uma visita à Polônia onde depositou flores no túmulo do soldado desconhecido local, telefonou ao primeiro-secretário do comitê municipal de Moscou, Nikolay Yegorychev, com uma pergunta que se tornaria histórica: "Estive na Polônia e depositei uma coroa no Túmulo do Soldado Desconhecido. Diga-me, por que não temos um assim em Moscou? Acaso nos faltam mortos sem nome?" As capitais europeias — Paris, Roma, Belgrado — já possuíam monumentos semelhantes havia décadas, e as visitas de líderes soviéticos ao exterior invariavelmente começavam por tais homenagens.

Desde 1997, o Posto Número 1 da guarda de honra está permanentemente instalado junto ao túmulo, com a troca de sentinelas ocorrendo a cada hora, das 8h às 20h — ritual que atrai visitantes do mundo inteiro. Ao longo de uma alameda de granito adjacente, blocos de pórfiro guardam cápsulas com terra retirada de dez cidades-herói: Leningrado, Kiev, Volgogrado, Odessa, Sebastopol, Minsk, Kerch, Novorossiysk, Tula e da fortaleza de Brest.

O monumento adquiriu função diplomática central no protocolo oficial russo. Chefes de Estado e delegações estrangeiras em visita oficial a Moscou depositam coroas e flores junto à Chama Eterna como parte obrigatória do cerimonial de Estado. Em maio de 2025, quando Moscou comemorou o octogésimo aniversário da vitória, Putin repetiu o gesto junto às delegações estrangeiras presentes, inclusive o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva.