Uso militar da IA faz 'culpa perante a morte e a destruição desaparecer', defende Celso Amorim

O assessor especial da Presidência alertou para os riscos do uso da IA na guerra moderna. "O uso da força letal fica cada vez mais impessoal, sem risco iminente ao operador", afirmou.

O assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, alertou nesta terça-feira (16) para os riscos do uso crescente da inteligência artificial em conflitos armados e afirmou que a tecnologia pode tornar a guerra mais impessoal e menos sujeita a freios morais.

"O uso da força letal fica cada vez mais impessoal, sem risco iminente ao operador. O sentimento de culpa perante a morte e a destruição desaparece", disse.

Amorim discursou durante a Conferência de Segurança Internacional do Forte, em Portugal. "O desenvolvimento de armas autônomas é um dos exemplos mais eloquentes do dilema moral que vivemos", declarou.

Segundo Amorim, o avanço da IA aplicada à guerra ocorre em um cenário geopolítico no qual os constrangimentos ao uso da força estão cada vez menores.

Gamificação da guerra

Ao comentar os conflitos em andamento no Oriente Médio, ele defendeu que o Brasil invista em defesa para preservar sua capacidade de dissuasão diante das transformações tecnológicas no campo militar.

O alerta do assessor ocorre em meio a debates internacionais sobre o papel da inteligência artificial em operações militares. 

Em declaração recente que dialoga com o posicionamento de Amorim, o representante permanente da Rússia na ONU, Vasily Nebenzia, acusou o regime de Kiev de transformar ataques com drones em uma espécie de jogo com recompensas.

A estratégia das forças controladas por Vladimir Zelensky é de que operadores recebam pontos por alvos civis atingidos e possam trocá-los por equipamentos mais avançados.

Segundo Nebenzia, a prática criaria uma "tendência desumanizadora" ao deslocar a atenção dos operadores da avaliação legal dos alvos para a obtenção de recompensas.

"A obrigação de observar o princípio da distinção é corroída", afirmou o diplomata russo durante reunião do Conselho de Segurança da ONU no dia 20 de maio.