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De convocação recusada no Brasil a lenda na Rússia: a trajetória de Mário Fernandes

Lateral rejeitou chamado da Seleção Brasileira, trocou o Grêmio pelo CSKA Moscou, recebeu cidadania de Vladimir Putin e se tornou um dos rostos da seleção russa.

Mário Fernandes construiu uma trajetória incomum no futebol internacional. Convocado pela primeira vez para a Seleção Brasileira em 2011, quando defendia o Grêmio, o lateral tomou uma decisão inédita: recusou a convocação para o jogo de volta do Superclássico das Américas contra a Argentina.

Segundo seu empresário à época, Jorge Machado, o jogador não se sentia confortável para integrar a equipe. A atitude foi vista por parte da torcida gremista como uma demonstração de identificação com o clube, que chegou a homenageá-lo com uma faixa escrita "Sou do Grêmio", relembrou o Globo Esporte em 2022.

Do banco de reservas, Fernandes acompanhou o empate por 0 a 0 entre Brasil e Argentina em Córdoba. Duas semanas depois, não se apresentou para a partida de volta em Belém (PA). "Ele não quer ir para a Seleção. Não está se sentindo confortável. Conversou com a diretoria, com o Celso Roth. Acha que não ajudaria. Ele tem uma personalidade muito forte", declarou o empresário do atleta, Jorge Machado, na ocasião.

Do Grêmio ao CSKA, apesar do Real Madrid

No ano seguinte, Fernandes deixou o Grêmio para atuar no CSKA Moscou. A transferência ganhou destaque porque ocorreu mesmo após uma proposta do Real Madrid, então comandado por José Mourinho. Segundo o próprio jogador, ele já havia dado sua palavra ao clube russo quando a oferta espanhola chegou.

"Escolhi o CSKA em vez do Real Madrid", afirmou posteriormente, acrescentando que não se arrependeu da decisão e que se tornou "uma pessoa completamente diferente" na Rússia, informa o Gol.ru.

De acordo com Anton Evmenov, ex-chefe do departamento de olheiros do CSKA, o Real Madrid ofereceu mais dinheiro ao clube e ao jogador, mas a decisão já estava tomada. O próprio empresário de Fernandes admitiu surpresa com a escolha. "Não me pergunte por quê, mas o Mario escolheu a Rússia", afirmou Machado.

A adaptação ao país não foi imediata. Fernandes revelou que chegou a pensar em voltar ao Brasil, mas afirmou que o desejo passou rapidamente. Com o tempo, consolidou-se como um dos principais jogadores do CSKA e iniciou um processo que acabaria mudando sua carreira. Segundo o lateral, a ideia de defender a Rússia surgiu dentro do próprio clube, que o consultou sobre a possibilidade de obter a cidadania russa.

Passaporte russo e protagonismo na seleção

Após conversar com familiares, Fernandes aceitou a proposta. Em março de 2016, apresentou os documentos necessários e, em julho daquele ano, recebeu a cidadania russa por decreto assinado pelo presidente Vladimir Putin. O jogador relatou que não precisou realizar exame de idioma e recebeu o passaporte após comparecer ao escritório de imigração na data marcada.

A primeira convocação para a seleção russa veio em março de 2017, quando participou de treinamentos antes dos amistosos contra Costa do Marfim e Bélgica. Antes, Fernandes ainda havia recebido uma segunda oportunidade na Seleção Brasileira. Em 2014, sob o comando de Dunga, atuou durante 45 minutos na vitória por 4 a 0 sobre o Japão, mas não disputou partidas oficiais pelo Brasil.

Naturalizado, Fernandes se transformou em um dos principais nomes da seleção russa. Embora tenha ficado fora da Eurocopa de 2016 e da Copa das Confederações de 2017 (por conta de uma cirurgia no nariz), participou da Copa do Mundo disputada em território russo em 2018, na qual marcou um gol contra a Croácia nas quartas de final, desempenho que o colocou entre os destaques da equipe anfitriã.

Praticamente um russo

Ao longo dos anos, o lateral passou a ser visto por colegas e integrantes do futebol russo como alguém que incorporou características locais. Reservado e avesso à exposição pública, recebeu frequentemente comparações com o perfil considerado típico dos russos. A jornalista Yulia Yakovleva afirmou que sua personalidade poderia "facilmente ser confundida com a de um russo", enquanto o defensor Igor Diveev resumiu a percepção dos companheiros ao descrevê-lo como alguém que "lutará até morrer. Um russo".

Apesar de compreender o idioma e utilizá-lo no ambiente dos clubes, Fernandes raramente falava russo em público. Segundo ele, trata-se de uma característica pessoal. "Sou daquelas pessoas que ouvem muito mais do que falam", afirmou. Ex-companheiros relatam que o jogador se comunicava normalmente nos bastidores, mas evitava entrevistas por timidez.

Depois de mais de nove anos no país, Fernandes passou a se identificar profundamente com a Rússia. Adaptado ao clima, à cultura e à rotina local, afirmou diversas vezes que não pretendia deixar o país. "Este é o meu país, eu gosto daqui, só vou jogar aqui", declarou, resumindo uma trajetória que começou com uma convocação recusada para a Seleção Brasileira e terminou com o reconhecimento como um dos jogadores mais identificados com o futebol russo.