O fortalecimento da indústria nacional de defesa é uma questão diretamente ligada à soberania nacional e à sua capacidade de tomar decisões estratégicas sem interferências externas.
A avaliação é do secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa do Brasil, Heraldo Luiz Rodrigues, em entrevista à RT Brasil sobre os desafios e perspectivas do setor.
Segundo o secretário, dominar a produção, a manutenção e a exportação de equipamentos militares é um elemento fundamental para garantir autonomia nacional em cenários de crise.
"Países que controlam tecnologias críticas de defesa possuem liberdade decisória real em momentos de crise, não estando, portanto, sujeitos a embargos, pressões de fornecedores externos ou condicionamentos políticos de terceiros", afirmou.
A declaração ocorre em um momento de crescente debate internacional sobre independência estratégica, diante de sanções econômicas, disputas geopolíticas e restrições tecnológicas impostas por grandes potências.
Para Rodrigues, a ampliação da cooperação com países do Sul Global e com os integrantes do BRICS representa uma oportunidade para reduzir desigualdades tecnológicas e construir alternativas aos modelos tradicionais de dependência do Ocidente.
"A cooperação em defesa com os países do Sul Global e o bloco BRICS é estratégica para fomentar a multipolaridade e reduzir assimetrias tecnológicas no cenário internacional."
De acordo com o secretário, essas parcerias permitem compartilhar custos, riscos financeiros e conhecimento tecnológico no desenvolvimento de novos sistemas de defesa, além de ampliar mercados para a Base Industrial de Defesa brasileira.
Na avaliação, a cooperação horizontal entre países emergentes também fortalece a capacidade de cada nação preservar sua independência.
"Ao estabelecer canais horizontais de comércio e codesenvolvimento, as nações parceiras fortalecem mutuamente sua autonomia e soberania, mitigando o risco de embargos e pressões unilaterais e garantindo o suprimento logístico de suas forças de maneira independente", destacou.
Além de questões estratégicas e de soberania, o secretário comentou sobre equipamentos, aeronaves e armamentos específicos da indústria bélica nacional. Confira:
RT: Em linhas gerais, como o Brasil está reposicionando sua indústria de defesa nesse novo cenário internacional de escalada militar?
Rodrigues: O Brasil está conduzindo um reposicionamento consistente e deliberado de sua Base Industrial de Defesa. Como Secretaria de Produtos de Defesa, temos atuado de forma direta nesse processo, orientados pelos marcos normativos fundamentais: a Política Nacional de Defesa, a Estratégia Nacional de Defesa, a Política Nacional da Base Industrial de Defesa e a Lei nº 12.598/2012, que estabeleceu o regime jurídico das Empresas Estratégicas de Defesa.
O cenário internacional atual, marcado por conflitos de alta intensidade, ruptura de cadeias de suprimentos e uso de sanções econômicas como instrumento de coerção, tornou urgente o que já era estrategicamente necessário: reduzir dependências externas em capacidades sensíveis. Estamos priorizando parcerias industriais e acordos de cooperação com foco em projetos de defesa cibernética, sistemas espaciais, radares, munições, mísseis, veículos blindados, aeronaves e comunicações seguras, todos com forte componente de tecnologia dual-use.
Paralelamente, aperfeiçoamos mecanismos estruturantes como a Política de Compensação Tecnológica, Industrial e Comercial de Defesa (PComTIC) e o Termo de Licitação Especial. Esses instrumentos ampliam o conteúdo nacional, favorecem a absorção tecnológica e garantem maior sustentabilidade logística às Forças Armadas. A atualização contínua do catálogo de produtos da BID reflete exatamente esse esforço: não se trata apenas de exportação comercial, mas de consolidar cadeias produtivas críticas e gerar capacidades soberanas duradouras.
Quais os impactos, em termos de soberania nacional, do Brasil ter acesso à produção e exportação de produtos pioneiros, sobretudo no contexto militar geopolítico atual, levando em conta atritos, intervenções e sanções unilaterais recentes?
Essa é, a meu ver, a questão central que justifica toda a política de fortalecimento da BID. O domínio nacional sobre a produção, manutenção e exportação de Produtos de Defesa tem impacto direto e imediato sobre a soberania do Estado brasileiro. Países que controlam tecnologias críticas de defesa possuem liberdade decisória real em momentos de crise, não estando, portanto, sujeitos a embargos, pressões de fornecedores externos ou condicionamentos políticos de terceiros.
O contexto ao qual a pergunta alude é ilustrativo. Vemos nações serem privadas de acesso a equipamentos, peças e tecnologias em razão de atritos geopolíticos. O Brasil, ao desenvolver sistemas estratégicos em território nacional, com propriedade intelectual própria ou elevado índice de nacionalização, amplia sua autonomia logística, industrial e tecnológica de forma estrutural.
Há ainda uma dimensão diplomática relevante: a exportação de Produtos de Defesa é pautada por um rigoroso processo de análise de salvaguardas, pelo respeito aos tratados internacionais e pelas diretrizes de política externa do Estado brasileiro, gerando, assim, vínculos institucionais duradouros. Acordos de treinamento, manutenção, interoperabilidade e cooperação industrial criam relações de parceria que fortalecem a projeção internacional do Brasil e sua inserção em mercados estratégicos. Soma-se a isso a retenção de conhecimento crítico, a formação de mão de obra altamente qualificada e o desenvolvimento de tecnologias de aplicação dual, gerando benefícios que transcendem o setor militar e alcançam toda a economia nacional.
Qual a importância da parceria com grupos como o BRICS e países do Sul Global na indústria de defesa em relação à soberania das nações?
A cooperação em defesa com os países do Sul Global e o bloco BRICS é estratégica para fomentar a multipolaridade e reduzir assimetrias tecnológicas no cenário internacional. Essas parcerias viabilizam o compartilhamento de riscos financeiros e tecnológicos no desenvolvimento de novos sistemas operacionais, abrindo mercados complementares para a Base Industrial de Defesa (BID).
Ao estabelecer canais horizontais de comércio e codesenvolvimento, as nações parceiras fortalecem mutuamente sua autonomia e soberania, mitigando o risco de embargos e pressões unilaterais e garantindo o suprimento logístico de suas forças de maneira independente.
Diante do uso crescente de sanções econômicas como instrumento de pressão internacional, qual o papel da indústria de defesa na construção de autonomia estratégica, inclusive em áreas não militares, como energia, logística e tecnologia?
A indústria de defesa cumpre, nesse novo ambiente internacional, um papel que vai muito além do provimento de capacidades militares. Ela é um núcleo estruturante de capacidades industriais críticas do Estado, sendo tratada desta maneira no âmbito da SEPROD.
Historicamente, os setores de defesa impulsionam cadeias tecnológicas avançadas com aplicações civis de grande relevância: telecomunicações, inteligência artificial, materiais especiais, sensoriamento remoto, cibernética, energia, aeroespacial e logística estratégica. Não por acaso, países que investiram sistematicamente em suas BIDs possuem hoje maior resiliência diante de choques externos.
No setor energético, a autonomia tecnológica reduz vulnerabilidades associadas à dependência de equipamentos críticos importados e de sistemas de controle industrial estrangeiros. Em logística, capacidades nacionais em transporte estratégico, indústria naval e monitoramento fortalecem a mobilização do Estado em situações de crise. Na dimensão tecnológica mais ampla, programas estratégicos de defesa demandam e, portanto, desenvolvem engenharia avançada, softwares críticos, semicondutores, criptografia e sistemas embarcados. Esses conhecimentos irradiam efeitos positivos sobre setores civis, ampliando competitividade e reduzindo dependência tecnológica externa.
É por isso que os mecanismos de transferência de tecnologia, compensação industrial e fortalecimento da BID não são instrumentos acessórios, mas sim pilares permanentes da política de defesa. Em um ambiente internacional mais fragmentado e competitivo, cabe à indústria de defesa assegurar que o Brasil mantenha a capacidade soberana de decidir, produzir, sustentar e proteger suas infraestruturas essenciais, sem condicionamento excessivo a fornecedores externos ou a restrições geopolíticas impostas por terceiros.
Sobre o catálogo da BID, ele inclui mísseis, drones, sistemas de monitoramento e outros. Quais são os produtos mais promissores em termos de exportação?
O catálogo da Base Industrial de Defesa (BID) conta com soluções robustas e de alta competitividade internacional. No segmento aeroespacial, destacam-se como líderes de prospecção e exportação a aeronave multimissão KC-390 Millennium e o vetor de ataque leve e treinamento avançado A-29 Super Tucano. No âmbito terrestre e tático, há forte apelo mercadológico para as famílias de viaturas blindadas de transporte de pessoal, armamentos leves, munições e tecnologias não letais. No cenário naval, temos a produção de Submarinos Convencionais e Fragatas da Classe Tamandaré, além de mísseis antinavio. Adicionalmente, o mercado global demonstra crescente interesse em sistemas integrados de comando e controle, sensores e radares 3D de controle de tráfego aéreo, além de soluções emergentes em sistemas de monitoramento e contramedidas eletrônicas de drones (C-UAS).