O Brasil deu um passo para produzir em escala nacional uma das terapias mais caras contra o câncer disponíveis no exterior e abrir caminho para sua oferta gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O lançamento do Centro de Desenvolvimento e Produção de Terapias CAR-T da Fundação Oswaldo Cruz, divulgado nesta quarta-feira (10), prevê investimento de R$ 330 milhões do Governo do Brasil na fabricação local de um tratamento que pode custar até US$ 400 mil (cerca de R$ 2 milhões) por paciente fora do país.
A nova estrutura, instalada no Rio de Janeiro, ficará sob responsabilidade da Fiocruz e terá como foco a produção 100% nacional da terapia CAR-T. A técnica utiliza células de defesa do próprio paciente, que são coletadas, modificadas geneticamente em laboratório e reinseridas no organismo para reconhecer e combater células cancerígenas.
A iniciativa busca reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros, diminuir custos e fortalecer a capacidade do país em uma área considerada estratégica para o tratamento do câncer.
Produção nacional e acesso pelo SUS
Um dos pontos centrais do centro será a fabricação, por Bio-Manguinhos, dos vetores lentivirais, componentes essenciais da terapia CAR-T. Antes importados, eles estavam entre os principais obstáculos para baratear o tratamento e ampliar sua disponibilidade no Brasil.
"Graças à capacidade de produção nacional e ao SUS, as pessoas poderão receber esse tratamento gratuitamente, como um direito. Porque o SUS é isso: vacina no braço, tratamento garantido, alívio no bolso e a família sendo cuidada com dignidade", afirmou Alexandre Padilha, ministro da Saúde.
"Não estamos falando apenas de uma grande indústria de produção tecnológica. Estamos falando de uma instituição que combina inovação, escala e acesso para salvar vidas”, completou.
A Fiocruz utilizará a tecnologia duoCAR-T triespecífico, transferida pela empresa americana Caring Cross. O modelo reconhece e ataca três alvos diferentes nas células cancerígenas, o que, segundo o governo, pode tornar a eliminação da doença mais eficaz e reduzir a chance de recidivas.
Os primeiros lotes piloto da terapia celular CAR-T devem ser produzidos até julho, e os estudos clínicos estão previstos para o segundo semestre de 2026.
Após essa fase e o início da produção pela Fiocruz, a tecnologia precisará obter registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), responsável por comprovar segurança, eficácia e qualidade antes do uso em larga escala.