
EXCLUSIVA: 'América Latina pertence aos latino-americanos', diz Celso Amorim à RT em Moscou

Celso Amorim, ex-chanceler brasileiro e assessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para assuntos de política externa, expôs nesta quarta-feira (27) à RT suas considerações sobre a unidade e a soberania na região latino-americana em meio à incerteza geopolítica global.
"América Latina tem que proteger a si mesma"
O diplomata, que liderou a delegação do Brasil noI Fórum Internacional de Segurança, na província de Moscou, indicou que é necessário "retomar a integração sul-americana e latino-americana".
"Embora as ideologias possam ser um pouco diferentes, isso não importa; a região tem que proteger a si mesma, seus recursos, sua independência e sua democracia", destacou.

Além disso, classificou como "preocupante" a presença militar dos EUA na região: "Acreditamos que a América Latina, incluindo o Caribe, pertence aos latino-americanos", afirmou, acrescentando que, por isso, anos atrás foi criada a União de Nações Sul-Americanas (Unasul).
Amorim ressaltou a urgência de retomar uma abordagem voltada para a paz.
"Acho que temos que fazer um esforço [...] e é muito importante voltar a isso, a uma visão de paz", declarou, acrescentando que o maior orgulho de seu país é que "o Brasil tem 10 vizinhos com os quais não trava uma guerra há 150 anos".
"Quantos países do mundo podem dizer isso? Acho que nenhum", sustentou.
Ameaças dos EUA a Cuba e agressão contra a Venezuela
O alto diplomata comentou as ameaças do governo dos EUA a Havana, manifestando o apoio do Brasil à independência da nação caribenha. "Pode-se ter ou não críticas sobre alguns aspectos, mas cada país é independente para resolver seus próprios problemas", disse.
Nesse contexto, indicou que valorizam o esforço da Rússia para enviar petróleo a Cuba, algo que o Brasil não pode fazer: "Também enviamos medicamentos e alguns alimentos. (...) Não é fácil fazer isso, mas o essencial é que é absolutamente necessário respeitar sua autodeterminação e os princípios de não intervenção e solução pacífica de conflitos", enfatizou.
Ao comentar a agressão de Washington contra a Venezuela e o sequestro de seu presidente, Nicolás Maduro, no início do ano, Amorim afirmou que "tudo isso é muito condenável".
Ele destacou que, embora seu país não se sinta imediatamente ameaçado, trata-se de algo que também deve ser considerado para fortalecer sua própria defesa.
Eleições de outubro e relação com os EUA
Questionado sobre a possibilidade de interferência de Washington nas eleições presidenciais no Brasil, que serão realizadas no dia 4 de outubro, o diplomata afirmou que não acredita que o governo dos EUA vá interferir no pleito.
Argumentando nesse sentido, Amorim lembrou que o presidente Lula visitou recentemente a Casa Branca para se reunir com Donald Trump. "Eles tiveram uma conversa muito, muito boa", detalhou.
Ao mesmo tempo, sustentou que "talvez existam outras influências e outros setores que tentem influenciar", acrescentando que, por isso, é discutida a importância da segurança da informação.
- Também nesta quarta-feira (27), Amorim se reuniu com o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, em Moscou.
- Durante a conversa, realizada em um tom construtivo e de confiança, os diplomatas trocaram análises sobre a atual situação global, incluindo o cenário no Oriente Médio e no golfo Pérsico, a situação na América Latina e a crise ucraniana.
- Além disso, reafirmaram o compromisso de fortalecer ainda mais a coordenação da política externa entre os dois países, em particular no âmbito de organismos multilaterais, principalmente o BRICS, a ONU e o G20.

