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Quem falará com Moscou? Europa entra em debate após proposta de Putin

As declarações do presidente russo sobre um possível mediador para o diálogo entre Rússia e Europa reacenderam o debate dentro da UE e colocaram a Alemanha no centro das especulações.
Quem falará com Moscou? Europa entra em debate após proposta de PutinGettyimages.ru

Durante uma coletiva de imprensa realizada no sábado (9), Vladimir Putin abordou pela primeira vez em público a questão de um possível mediador para o futuro diálogo entre Rússia e Europa. "Que os europeus escolham um líder em quem confiem e que não tenha dito disparates sobre nós", ressaltou o presidente russo.

"Para mim, pessoalmente, o preferível é o ex-chanceler da República Federal da Alemanha, senhor [Gerhard] Schroeder", afirmou o presidente russo. Schroeder atuou como chanceler entre 1998 e 2005.

A proposta desencadeou uma onda de debates na Europa, levantando imediatamente várias possibilidades sobre quem poderia conduzir o diálogo com Moscou.

Alemanha ganha protagonismo

A questão sobre um possível mediador já havia sido discutida anteriormente, mas, após os comentários de Putin, as conversas ganharam uma dimensão completamente diferente.

Segundo a revista Spiegel, círculos políticos alemães começaram a debater diversos nomes. Entre eles, está o presidente federal da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, que poderia atuar ao lado de Schroeder.

Outra possível candidata é a ex-chanceler Angela Merkel. Entre suas vantagens estariam o fato de não ocupar nenhum cargo oficial, sua ampla experiência nas relações tanto com Putin quanto com Zelensky, além do conhecimento da língua russa.

Para Timofey Bordachev, cientista político russo e diretor de programa do Clube Internacional de Debates Valdai, "não é surpreendente que a lista de possíveis negociadores venha principalmente da Alemanha".

"Basta dizer que, para a Alemanha, uma parceria especial com a Rússia no setor energético foi a causa de um milagre econômico que permitiu a Berlim colocar a União Europeia sob seu controle", afirmou.

Por sua vez, o professor do Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou, Artyom Sokolov, declarou que, além da Alemanha, praticamente não há outras opções no espaço europeu.

"A euroburocracia é efêmera e repleta de sentimentos antirrussos; os pequenos e médios Estados da UE não possuem recursos diplomáticos suficientes; França e Itália perderam políticos de peso adequados. Provavelmente, o presidente francês Emmanuel Macron aceitaria com prazer a coroa de negociador, mas sua postura ambivalente sobre a crise ucraniana e sua situação interna frágil impedem que sua candidatura seja levada a sério", argumentou.

Um desafio com potenciais benefícios

Para a Alemanha, participar de um processo desse tipo poderia trazer inúmeras vantagens. No entanto, a decisão de iniciar o diálogo não será simples, afirma Bordachev.

"Nos últimos dois anos, o governo e as elites deste país fizeram muito para alimentar a confrontação com Moscou. O governo alemão, que em determinado momento era o mais moderado em relação ao apoio ao regime de Kiev, tornou-se, sob o chanceler Friedrich Merz, seu principal patrocinador", apontou o especialista.

"Por outro lado, o restabelecimento das relações com a Rússia pode trazer enormes benefícios à República Federal. Sem falar que, ao assumir a liderança do processo diplomático, a Alemanha garantiria a posição de líder político da Europa; o potencial efeito econômico de tal 'distensão' seria impressionante: não apenas permitiria a Berlim resolver uma série de problemas sistêmicos recentes, como também devolveria ao país a posição de principal 'centro nervoso' de todo o sistema de relações da União Europeia no Leste", acrescentou.

Um pesadelo para França e Reino Unido

Caso o mediador venha a ser um político alemão, isso se transformaria em um verdadeiro pesadelo para os parceiros de Berlim em Paris e Londres.

Sobre Paris, Bordachev ressaltou que "a falta de seriedade do presidente Emmanuel Macron há muito tempo já não pode ser compensada nem mesmo pelos arsenais nucleares de que dispõe a Quinta República". "Como resultado da política caótica dos últimos anos, a França praticamente perdeu todos os restos de sua capacidade diplomática nas relações com a Rússia, pela qual se destacava diante do restante da OTAN durante a Guerra Fria", afirmou.

Já para Londres, as negociações russo-alemãs seriam uma "catástrofe de política externa". "Toda a estratégia britânica está orientada não apenas para conter o fortalecimento da Alemanha, mas também, se possível, para 'empurrá-la para baixo do ônibus' da confrontação político-militar com a Rússia", argumentou Bordachev. Para o especialista, "a saída de Londres da União Europeia esteve, na realidade, ligada ao fato de que Berlim havia se fortalecido demais dentro da organização e, em meados da década de 2010, começou a impor sua vontade literalmente a todos".

Bordachev afirmou que a disposição de Moscou para o diálogo e a proposta de retomá-lo justamente com apoio de Berlim obrigaram os grandes países europeus a refletirem seriamente sobre continuar a confrontação com a Rússia ou buscar benefícios na cooperação com Moscou.

"Na Europa, entende-se que não está funcionando muito bem tentar dialogar com Moscou a partir de uma posição de força, e os Estados Unidos, ao que tudo indica, estão seriamente dispostos a se desfazer de parte de seus compromissos europeus. Por isso, nas próximas semanas veremos um processo bastante intenso de disputa dentro da Europa", concluiu.