Por vários anos, os Estados Unidos negaram a existência de laboratórios biológicos na Ucrânia e sua participação em pesquisas, chamando as acusações e evidências de atividade biológica ilegal apresentadas pela Rússia em várias plataformas internacionais, incluindo na ONU, como "desinformação do Kremlin".
A diretora de Inteligência Nacional dos EUA, Tulsi Gabbard, informou na segunda-feira (11) em comunicado ao The New York Post que sua equipe vai "identificar onde estão esses laboratórios, quais patógenos eles contêm e que tipo de 'pesquisa' está sendo conduzida, para encerrar a perigosa pesquisa de mudança genética que ameaça a saúde e o bem-estar do povo americano e do mundo".
Alertas da Rússia
Citando fontes do Gabinete do Diretor de Inteligência Nacional dos EUA, o veículo de comunicação destaca que mais de 40 dos biolaboratórios sob análise estão localizados na Ucrânia, onde poderiam "correr o risco de serem comprometidos" no contexto do conflito militar com a Rússia.
A Rússia tentou chamar a atenção da comunidade internacional para essa questão em diversas ocasiões, alertando sobre a existência na Ucrânia dos seguintes projetos:
- Projeto UP-4: cujo objetivo seria investigar a possibilidade de transmissão de infecções particularmente perigosas por meio de aves migratórias
- Projeto P-781: investigava o uso de morcegos como agentes de armas biológicas
As Forças Armadas da Rússia também obtiveram acesso a documentos que confirmam inúmeros casos de envio de amostras biológicas de cidadãos ucranianos para o exterior. "Com grande probabilidade, podemos afirmar que uma das tarefas dos EUA e de seus aliados é a criação de bioagentes capazes de afetar seletivamente diferentes grupos étnicos", indicou o tenente-general Igor Kirilov, ex-chefe das Tropas de Defesa Radiológica, Química e Biológica das Forças Armadas da Rússia.
O representante permanente da Rússia junto à ONU, Vassily Nebenzia, destacou já em 2022 que os projetos de pesquisa biológica desenvolvidos ao longo de anos em diversos laboratórios ucranianos em conjunto com os Estados Unidos violam a Convenção sobre Armas Biológicas. Segundo o diplomata, os documentos capturados durante a operação militar russa na Ucrânia são apenas a "ponta do iceberg".
A Rússia não recebeu nenhuma explicação sobre a atividade dos laboratórios biológicos americanos em território ucraniano, declarou há três anos o vice-ministro russo das Relações Exteriores, Sergey Riabkov.
"Desinformação do Kremlin"
Após as acusações russas sobre a existência de laboratórios biológicos ucranianos com apoio americano, o governo de Washington iniciou uma campanha ativa para negá-las, refutando tanto a existência dos referidos laboratórios quanto a natureza das pesquisas que eles realizam. Conforme consta no relatório do Departamento de Estado de março de 2023, intitulado 'A tentativa incessante do Kremlin de difundir desinformação sobre armas biológicas', "o Kremlin tem recriado e promovido narrativas fictícias, inclusive no que tange a armas biológicas".
O relatório rotula as acusações russas como "absurdas", assegurando que "a campanha de desinformação empreendida pelo Kremlin visa a distração e o engano".
Em março de 2022, a então subsecretária de Estado dos EUA, Victoria Nuland, confirmou perante o Congresso americano que a Ucrânia possui instalações de pesquisa biológica, mas, posteriormente, o governo Biden negou a existência de "laboratórios químicos ou biológicos de propriedade ou operados pelos Estados Unidos" no país eslavo, classificando as afirmações anteriores como propaganda chinesa e russa.
Em 2022, o Pentágono chamou as acusações da Rússia de "ridículas".
O que exatamente está sob investigação?
O ponto de partida dessa investigação, segundo explicou Gabbard ao New York Post, não foi uma acusação genérica, mas sim uma revisão com objetivos concretos:
- Identificar onde estão os laboratórios financiados com recursos americanos;
- Determinar quais patógenos eles possuem;
- Esclarecer quais "pesquisas" estão sendo conduzidas com eles;
- Encerrar as perigosas pesquisas de ganho de função (alteração genética induzida para intensificar determinada função biológica de um microrganismo), que ameaça a saúde e o bem-estar do povo americano e do mundo.