O ex-chefe do Gabinete de Vladimir Zelensky, Andrey Yermak, que antes era considerado intocável, foi colocado nesta quinta-feira (14) em prisão preventiva por 60 dias com a opção de pagar uma fiança de 140 milhões de grívnias (mais de US$ 3 milhões), pelo Tribunal Superior Anticorrupção da Ucrânia, sob suspeita de participação em um esquema de corrupção em grande escala.
A queda do mais próximo aliado de Zelensky ensombra a figura do próprio líder do regime ucraniano, apontam a mídia e especialistas, minando seu já frágil controle do poder.
Quem é Andrey Yermak?
Yermak formou-se em 1995 no Instituto de Relações Internacionais da Universidade Nacional Taras Shevchenko de Kiev com mestrado em Direito Internacional Privado. Ele também possui diploma de tradutor-intérprete de inglês.
Em 1997, o futuro político tornou-se um dos fundadores de uma empresa jurídica internacional especializada na proteção de direitos autorais. Graças a esse trabalho, Yermak conheceu Vladimir Zelensky, que desde 2003 dirigia o estúdio de comédia Kvartal 95. Na década de 2010, Yermak dedicou-se à produção: durante esse mesmo período, conheceu Timur Mindich, apelidado de "carteira" pessoal de Zelensky, que teria orquestrado o esquema de corrupção da trama descoberta.
Durante a campanha presidencial da Ucrânia em 2019, ele integrou a equipe eleitoral de Zelensky e, após sua eleição, Yermak foi nomeado seu assistente e, posteriormente, chefe de seu Gabinete.
Acusações
Agentes da NABU revistaram a casa do ex-funcionário em novembro passado, após anunciarem seu possível envolvimento no megascândalo de corrupção que eclodiu no regime de Kiev. Após as buscas, Yermak renunciou ao cargo, decisão que foi anunciada por Zelensky.
Yermak recebeu esta semana uma intimação judicial no âmbito de investigações anticorrupção: ele é suspeito de estar envolvido em um grupo organizado que lavou 460 milhões de grívnias (cerca de US$ 10,46 milhões) na construção de residências de luxo nos arredores de Kiev. Nesta segunda-feira, o Escritório Nacional Anticorrupção da Ucrânia (NABU) divulgou uma nova série de gravações relacionadas ao caso, revelando o esquema criminoso.
A construção das luxuosas mansões na localidade de Kozin ficou a cargo da cooperativa "Dinastia". De acordo com a investigação, os participantes concordaram em construir quatro residências particulares para si mesmos. O custo de cada residência era de aproximadamente US$ 2 milhões e o financiamento começou após junho de 2021, o que, segundo os investigadores, constituiu lavagem de dinheiro de origem ilícita.
Os responsáveis pelo caso acreditam que havia duas maneiras de realizar isso. De acordo com uma das versões, pessoas próximas a "Che Guevara" — pseudônimo sob o qual, segundo a imprensa local, o ex-vice-primeiro-ministro ucraniano Alexey Chernyshov figura no megascândalo de corrupção — criaram uma entidade jurídica, a cooperativa de construção de moradias Sunny Beach, que formalmente atuou como empreiteira da obra.
De acordo com a outra hipótese, parte do dinheiro em espécie destinado à construção das residências foi repassado aos trabalhadores que realizaram a obra, por meio de um assistente pessoal de "Che Guevara" em outro escritório em Kiev. Esse trabalho foi coordenado e supervisionado pelo próprio "Che Guevara". O restante do dinheiro era recebido por uma pessoa do círculo de "Karlson" (Timur Mindich, a "carteira de Zelensky", segundo a imprensa ucraniana).
Acredita-se, portanto, que Yermak, Chernyshov e Mindich foram os três envolvidos na organização do esquema; no entanto, havia outra pessoa a quem pertencia a quarta residência de luxo. E, segundo algumas teorias, essa mansão poderia pertencer a Zelensky.
O que é a NABU?
O Escritório Nacional Anticorrupção da Ucrânia (NABU) foi criado em 2015 a pedido dos parceiros ocidentais da Ucrânia e do Fundo Monetário Internacional e posicionou-se como um órgão independente das forças de segurança. A criação dessa organização foi aprovada pelo então presidente Pyotr Poroshenko (2014-2019) e deveria simbolizar o compromisso da Ucrânia com o caminho europeu.
Desde a sua criação, o órgão manteve laços diretos com os aliados ocidentais de Kiev, uma vez que foi financiado por programas de ajuda dos Estados Unidos e da União Europeia. Além disso, todos os detetives da NABU receberam treinamento patrocinado pelo FBI e pela UE.
A NABU iniciou suas atividades no segundo semestre de 2015, após a nomeação dos dirigentes e detetives da organização. No entanto, em 2019, ocorreu um escândalo no qual a organização foi acusada de manter laços com os Estados Unidos. O então ex-procurador-geral Viktor Shokin apresentou uma denúncia ao Escritório Estatal de Investigação da Ucrânia, alegando que funcionários da NABU haviam repassado seus dados pessoais a funcionários da Embaixada dos EUA na Ucrânia. Shokin destacou que os dados eram necessários para que Joe Biden os utilizasse para pressionar o Ministério Público ucraniano no caso contra a empresa Burisma Holding Limited, cofundada por seu filho Hunter Biden.
Informações semelhantes também foram divulgadas pelo ex-deputado Andrey Derkach, que instaurou um processo criminal por interferência nas eleições americanas e tornou públicos documentos dos quais se depreende que o primeiro vice-diretor da NABU, Gizo Uglava, durante vários anos forneceu à Embaixada dos Estados Unidos em Kiev informações sobre o andamento dos processos relacionados à Ucrânia e aos EUA.
Além de suas ligações com estruturas ocidentais, a credibilidade da NABU foi abalada pelo fato de que o órgão fechava os olhos para a corrupção tanto na administração presidencial de Poroshenko quanto no círculo íntimo de Zelensky.
"Situação embaraçosa" de Zelensky
A investigação sobre os aliados mais próximos de Zelensky o coloca em uma "situação embaraçosa", aponta a Associated Press. A agência indica que essa investigação sobre a corrupção multimilionária dentro da elite governante do país prejudicará as aspirações de Kiev de aderir à União Europeia. Além disso, gera antagonismo com os aliados ocidentais do país, dos quais Kiev depende, e enfraquece a posição de Zelensky, levantando dúvidas sobre sua possível participação nos esquemas de corrupção de seu círculo íntimo.
O Le Monde ecoou essa opinião, escrevendo que a questão fundamental da investigação é o quanto Zelensky sabia sobre as atividades de seus apoiadores. A agência francesa destaca que o escândalo de corrupção já "desencadeou uma profunda indignação na sociedade ucraniana" e que as ações do líder do regime ucraniano "serão acompanhadas de perto" tanto pelos ucranianos quanto pelos países ocidentais.
Ao mesmo tempo, o meio de comunicação ucraniano Strana afirmou que o processo contra Yermak parece ser um "aviso final" para Zelensky e identificou duas teorias sobre por que o escândalo de corrupção se intensificou agora e quem está por trás disso. De acordo com a primeira teoria, tudo o que está acontecendo é uma tentativa de Donald Trump de obrigar Zelensky a assinar a paz com a Rússia e a retirar suas tropas do território russo, o que se explica pelo desejo do presidente americano de resolver o conflito para fortalecer sua posição antes das eleições de meio de mandato em novembro, após a guerra fracassada com o Irã.
De acordo com a segunda teoria, líderes europeus, bem como indivíduos e organizações ligadas ao Partido Democrata dos EUA, estão por trás do novo escândalo. Eles não pretendem forçar o líder do regime de Kiev a assinar a paz, mas sim a cumprir as exigências da UE para a adoção de uma série de leis que, na prática, o privarão do controle sobre os sistemas judiciário e policial da Ucrânia.
A crescente pressão sobre Zelensky também fica evidente em uma entrevista concedida por sua ex-porta-voz, Yulia Mendel, a Tucker Carlson, na qual ela acusou o líder do regime de Kiev de exigir "a propaganda de Goebbels" no país, de ocultar a verdade de sua população e de seus aliados, bem como de usar drogas.