Milhares de documentos desclassificados pelos EUA revelam o papel central desempenhado pela Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) no México durante décadas, graças às estreitas relações mantidas com o poder político.
As autoridades americanas mantiveram em segredo o vínculo estreito, baseado em informações e operações encobertas, que a agência federal desenvolveu em território mexicano no contexto da Guerra Fria.
Segundo o Arquivo de Segurança Nacional dos EUA, a CIA e o Governo mexicano concordaram em realizar "um dos programas de vigilância conjunta mais extensos da história da agência", chamado Operação LIENVOY, que se estendeu por mais de cinco décadas.
A proposta mexicana
Foi o ex-presidente Adolfo López Mateos (1958-1964) quem propôs à agência americana a ambiciosa operação de espionagem, iniciada durante seu governo e mantida inclusive por seus sucessores.
A administração de López Mateos impulsionou a inclusão de alvos comunistas nas operações de espionagem conjunta com a CIA. Assim, linhas telefônicas de embaixadas como as de Cuba e da União Soviética foram interceptadas no âmbito da Operação LIENVOY, que se prolongou pelo menos até 1994.
Entre as personalidades cujas conversas foram espionadas estavam o pintor David Alfaro Siqueiros, o ex-presidente Lázaro Cárdenas e o ex-presidente guatemalteco Juan José Arévalo (1945-1951), exilado no México após o golpe de Estado apoiado pelos EUA.
Relação com o poder
Os documentos desclassificados revelaram que a CIA recrutou agentes nas "altas esferas" do Governo mexicano entre 1956 e 1969, conforme informações do Arquivo de Segurança Nacional da Universidade George Washington.
Uma das principais fontes era o próprio ex-presidente Gustavo Díaz Ordaz (1964-1970), assim como seu sucessor, Luis Echeverría Álvarez (1970-1976).
Segundo a documentação, existia uma relação próxima entre altos funcionários da agência americana, como o chefe da estação da CIA no México, Winston Scott, sustentada por uma rede secreta de espionagem cujo codinome era "LITEMPO".
O que foi o projeto LITEMPO?
O projeto LITEMPO, que fluía sem obstáculos da Embaixada dos EUA no México até as instâncias de poder, era "um canal extraoficial não público para a troca de informações políticas sensíveis que cada Governo desejava que o outro recebesse".
Eram os anos da Guerra Fria. O intervencionismo americano buscava a todo custo impedir o avanço do comunismo na América Latina, além de eliminar a suposta influência cubana e soviética sobre o México.
Por isso, Washington voltou sua atenção para os movimentos estudantis, considerados "inimigos internos", que impulsionavam uma série de protestos contra os abusos de poder e o intervencionismo americano.
O ponto máximo ocorreu no contexto dos protestos estudantis de 1968. Embora a participação direta da CIA não tenha sido comprovada, tornou-se conhecido que a agência federal realizava um rigoroso monitoramento encoberto do movimento estudantil, informa o portal Extremo Sur.
Após o massacre de Tlatelolco, ocorrido em 2 de outubro de 1968, a CIA apoiou a versão oficial segundo a qual os estudantes haviam iniciado um confronto contra a polícia, omitindo que foram cercados e atacados por tanques.
Da mesma forma, Washington minimizou o número de mortos e contribuiu para o clima de impunidade após o massacre.