
Ditadura militar brasileira tinha rede de agentes infiltrados na América Latina, revelam arquivos

Um relatório de 68 páginas, elaborado pelo coronel Cyro Etchegoyen, ex-integrante do Centro de Informações do Exército (CIE), em 1974, comprova que a ditadura militar brasileira mantinha ao menos seis informantes infiltrados em Argentina, Uruguai e Chile, segundo os papéis, obtidos pelo portal ICL Notícias como parte do projeto "Bandidos de farda", revelados nesta terça-feira (12).

Segundo o veículo, a colaboração tinha como objetivo "monitorar as atividades de exilados brasileiros nos países vizinhos, obter informações sobre a política local e trocar informações com órgãos de repressão sobre militantes estrangeiros no Brasil".
Agentes infiltrados em órgãos públicos
Os agentes infiltrados atuavam sob codinomes e recebiam treinamento da seção de contrainformação do CIE.
No Chile, os informantes "Temuco" e "Amistad", este último ocupando cargo de chefia no serviço de contrainformação do Ministério da Defesa chileno, forneciam dados sobre exilados brasileiros e faziam a ponte entre os regimes militares.
No Uruguai, o agente "Lobo", era um integrante da Polícia Civil, subornado com pagamentos mensais equivalentes a R$ 2.583,33.
Espionagem na Argentina
Na Argentina, as operações "Gênese II" e "San Martin" utilizavam desde residentes indocumentados em Buenos Aires até fundadores do grupo Patria Libre para monitorar a esquerda local.
Um desses agentes infiltrados também atuava em grupos de extrema direita argentinos e forneceu informações até o estado de saúde do presidente Juan Domingo Perón, que morreu em julho de 1974, e a influência que o general Alejandro Agustín Lanusse, que de fato exerceu funções do presidente no país entre 1971 e 1973, mantinha sobre o exército.
Apoio decisivo ao golpe no Chile
O ponto alto das operações foi a chamada Operação Temuco, executada em setembro de 1973. Militares do CIE infiltraram no Chile dois líderes do grupo paramilitar de extrema direita Patria y Libertad, Eduardo Díaz Herrera e Pablo Rodríguez, às vésperas do golpe que derrubou o presidente socialista Salvador Allende.
O CIE gastou o equivalente a R$ 50 mil em contatos com os infiltrados no Chile.
O sequestro do embaixador suíço no Brasil, em 1970, pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), cujos 70 presos libertados foram asilados no Chile de Allende, acelerou a decisão da ditadura brasileira de agir para derrubar o governo socialista.
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Após o golpe, oficiais do CIE chegaram a interrogar presos no Estádio Nacional de Santiago, consolidando a integração repressiva entre as ditaduras latino-americanas.


