Cientistas alertam que a Antártida está derretendo mais rápido do que o previsto

Pesquisa publicada na revista científica Nature Communications indica que estruturas ocultas sob geleiras retêm água mais quente e intensificam o degelo.

Um estudo publicado neste domingo (10) na revista científica Nature Communications aponta que o derretimento da Antártida ocorre mais rapidamente do que o esperado devido à presença de canais profundos sob as plataformas de gelo que retêm água do mar mais quente. As conclusões foram divulgadas a partir de informações citadas pelo ScienceDaily.

Segundo os pesquisadores, esses canais formados no interior do gelo funcionam como "armadilhas" de água quente, acelerando significativamente o derretimento na parte inferior das geleiras flutuantes. O fenômeno pode contribuir para o aumento do nível global do mar em ritmo mais rápido do que o previsto.

Antártida Oriental

Os cientistas investigaram a plataforma de gelo Fimbulisen, localizada na Antártida Oriental — região considerada até então relativamente estável. A pesquisa mostrou que o formato da base da geleira influencia diretamente a circulação da água do oceano sob o gelo.

Nas áreas onde existem canais profundos, correntes marítimas criam pequenas circulações que mantêm a água quente presa sob o gelo, impedindo sua dispersão rápida e intensificando o degelo.

Um dos autores do estudo, Tore Hattermann, do iC3 Polar Research, em Tromsø, na Noruega, afirmou que "a forma da parte inferior de uma plataforma de gelo não é apenas uma característica passiva", pois pode "reter ativamente o calor do oceano exatamente nos locais onde o derretimento adicional causa maior impacto".

Risco à estabilidade

De acordo com os pesquisadores, mesmo pequenas quantidades de água mais quente já são capazes de ampliar os canais existentes, o que pode enfraquecer a estabilidade estrutural das plataformas de gelo.

Hattermann destacou que "uma pequena quantidade de água quente pode intensificar significativamente o derretimento nos canais", ampliando essas estruturas e reduzindo a capacidade das plataformas de conter o avanço das geleiras em direção ao oceano.

Os cientistas alertam ainda para um possível efeito de retroalimentação: à medida que os canais se aprofundam, o gelo pode afinar de forma desigual, aumentando o risco de instabilidade geral.

O estudo afirma que modelos climáticos atuais não consideram esse mecanismo, o que pode levar à subestimação da sensibilidade das plataformas de gelo consideradas frias na Antártida Oriental diante do aquecimento das águas costeiras.

Segundo os pesquisadores, essas mudanças já foram observadas e devem se intensificar no futuro, podendo também afetar a circulação oceânica e os ecossistemas marinhos da região.