Governo do RJ suspende compra de helicóptero Black Hawk após suspeitar que aeronave era usada

Administração estadual apontou dúvidas técnicas sobre o uso em operações policiais e questionamentos sobre ligações entre empresas participantes na licitação.

O governo em exercício do Rio de Janeiro suspendeu a compra de um helicóptero militar modelo Black Hawk destinado à Polícia Militar após identificar inconsistências no processo de licitação, suspeitas sobre a procedência da aeronave e questionamentos técnicos relacionados ao uso do equipamento em operações urbanas. As informações foram reveladas em levantamento do g1, divulgado neste domingo (10).

A aquisição custaria 12,6 milhões de dólares — cerca de R$ 70,3 milhões na cotação da época — e previa o fornecimento da aeronave pela empresa Blue Air Táxi Aéreo.

Segundo o governo estadual, o contrato permanece suspenso enquanto passa por análise técnica e jurídica dentro do primeiro ciclo de auditorias determinado pelo governador interino, desembargador Ricardo Couto.

Suspeitas no processo

A apuração do g1 identificou ligações entre empresas participantes da concorrência. A Flyone, representada por Fernando Carlos da Silva Telles, conhecido como "Tico-Tico", participou das etapas iniciais da licitação, enquanto a Blue Air foi declarada vencedora no fim de 2025.

Documentos da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) indicam que Daniel de Sousa Freitas da Silva Telles, sobrinho de Fernando Telles, ocupa o cargo de diretor de operações da Blue Air. O Ministério Público Federal investiga acidentes envolvendo aeronaves da Flyone no Acre, ocorridos quando Telles era responsável pela empresa.

Até a publicação da reportagem, portal informou não ter conseguido contato com Fernando Telles, Daniel Telles ou o representante da Blue Air, Renato Carriço dos Santos.

Diferença de valores

O valor apresentado pela Blue Air chamou atenção do governo estadual por ficar abaixo do preço médio pago pela Aeronáutica na aquisição de helicópteros Black Hawk em 2025. A diferença levantou suspeitas sobre a possibilidade de o equipamento possuir peças usadas.

Nenhum pagamento foi efetuado pelo estado, segundo levantamento interno da equipe do governador em exercício.

Questionamentos operacionais

Além das dúvidas administrativas, avaliações técnicas indicaram baixa funcionalidade do helicóptero em operações urbanas. Com cerca de quatro toneladas, o Black Hawk exige áreas maiores para pouso e pode provocar deslocamento de telhados em comunidades devido à força das hélices durante voos em baixa altitude.

Apesar do anúncio oficial da compra em janeiro, o governo concluiu que não realizará o investimento.

Em nota, o Governo do Estado afirmou que os processos "estão sendo examinados sob critérios técnicos e jurídicos e, enquanto passam por análise de conformidade, permanecem suspensos". A Polícia Rodoviária Federal confirmou que Daniel Telles possui habilitação como comandante de helicópteros e está licenciado das funções desde 2024.