Um relatório da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) concluiu que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi morto em 1976 pela ditadura militar, contrariando a versão oficial de acidente automobilístico mantida por investigações anteriores. O texto, elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão, ainda será votado pelos conselheiros do colegiado. A informação é do jornal Folha de S.Paulo, publicada nesta quinta-feira (8).
O documento afirma que a morte de JK foi "não natural, violenta e causada pelo Estado brasileiro por perseguição política" e recomenda a retificação das certidões de óbito do ex-presidente e de seu motorista, Geraldo Ribeiro.
Reexame do caso
A morte ocorreu em 22 de agosto de 1976, quando o carro em que JK viajava pela Via Dutra colidiu com uma carreta após perder o controle. Investigações conduzidas durante a ditadura, uma comissão da Câmara dos Deputados em 2001 e a Comissão Nacional da Verdade, em 2014, classificaram o episódio como acidente.
Outras apurações, porém, levantaram a hipótese de atentado político. O novo relatório compila estudos anteriores, com destaque para inquérito civil do Ministério Público Federal conduzido entre 2013 e 2019. O procurador Paulo Sérgio Ferreira Filho apontou "falhas severas nas investigações realizadas pelo Estado brasileiro", incluindo ausência de exames toxicológicos completos e inconsistências periciais.
Perícia técnica revisada pelo engenheiro Sergio Ejzenberg descartou a colisão prévia entre o ônibus e o Opala de JK, base da versão oficial. Segundo ele, conclusões anteriores se apoiaram em "laudos imprestáveis".
O relatório também destaca o contexto político da época. Cassado após o golpe de 1964, JK integrava a Frente Ampla, grupo de oposição ao regime militar, e teve seu nome citado em comunicações relacionadas à Operação Condor, que articulava ditaduras sul-americanas contra opositores.
Próximos passos
A relatora Maria Cecília Adão não comentou o conteúdo por se tratar de matéria ainda em deliberação. A expectativa interna é de aprovação do texto pela maioria dos sete conselheiros da comissão.
Caso confirmado, o reconhecimento terá caráter histórico e simbólico, sem previsão de indenização à família, já que os prazos legais para pedidos financeiros foram encerrados.