A Polícia Federal investiga um suposto esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e favorecimento político envolvendo o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o empresário Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master. A nova fase da operação Compliance Zero foi deflagrada nesta quinta-feira (7).
Segundo a investigação, Vorcaro teria concedido vantagens econômicas ao parlamentar em troca de atuação legislativa favorável ao grupo empresarial ligado ao banco.
Em decisão judicial, segundo o Poder360, o ministro André Mendonça afirmou que os elementos reunidos indicam "um arranjo funcional e instrumentalmente orientado para obtenção de benefícios mútuos, extrapolando relações de mera amizade".
Pagamentos
De acordo com a PF, o esquema teria quatro frentes principais: atuação legislativa alinhada aos interesses do Banco Master, pagamentos mensais ao senador, uma operação societária considerada irregular e uso de empresas para ocultação financeira.
O principal episódio envolve uma emenda apresentada por Ciro Nogueira à PEC 65 de 2023, que ampliava a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. Investigadores afirmam que o texto foi elaborado pela assessoria do banco e reproduzido "de forma integral" na proposta apresentada no Senado. Em mensagens atribuídas a Vorcaro, ele afirma: "Saiu exatamente como mandei".
A investigação também cita repasses periódicos ligados a uma parceria identificada como "BRGD/CNLF", com pagamentos mensais inicialmente de R$ 300 mil, depois elevados para R$ 500 mil. Conversas reproduzidas na decisão mencionam questionamentos sobre a continuidade dos pagamentos e atrasos nos repasses associados ao senador.
Benefícios pessoais
Outro ponto investigado é a compra de 30% da Green Investimentos S.A. pela empresa CNLF Empreendimentos, ligada ao núcleo familiar do senador, por R$ 1 milhão. Segundo a PF, a participação teria valor estimado em cerca de R$ 13 milhões, configurando "deságio expressivo" e vantagem econômica indireta.
A decisão também aponta indícios de benefícios pessoais, incluindo custeio de viagens internacionais, hospedagens, voos privados, uso de imóvel de alto padrão e despesas pessoais pagas por terceiros. Há menção a hospedagens no Park Hyatt New York e a mensagens autorizando pagamento de restaurantes e despesas durante viagem a St. Barths.
Medidas cautelares
O ministro André Mendonça afirmou que há indícios, em tese, de corrupção passiva e ativa, organização criminosa, lavagem de dinheiro e crimes contra o sistema financeiro nacional. Segundo ele, as medidas cautelares visam evitar destruição de provas, alinhamento de versões e continuidade das práticas investigadas.
O STF proibiu Ciro Nogueira de manter contato com testemunhas e demais investigados. O irmão do senador, Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, deverá usar tornozeleira eletrônica, entregar o passaporte, permanecer no município de residência e não poderá sair do país.
Também foi autorizada a suspensão das atividades das empresas CNLF Empreendimentos Imobiliários Ltda., BRGD S.A., Green Investimentos S.A. e Green Energia Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia, apontadas pela PF como instrumentos de lavagem de dinheiro.
Reações
A defesa de Ciro Nogueira afirmou ao Poder360 repudiar "qualquer ilação de ilicitude" e declarou que o senador não participou de atividades ilegais. Os advogados informaram que ele está à disposição da Justiça e criticaram as medidas cautelares, dizendo que foram baseadas em "mera troca de mensagens, sobretudo por terceiros".
A reportagem do jornal digital informou que tentou contato com as defesas de Daniel Vorcaro e Felipe Cançado Vorcaro, mas não houve resposta.